Recursos Hídricos
José Galizia Tundisi
Instituto Internacional de Ecologia
São Carlos-SP
Introdução
A água é essencial à vida e
todos os organismos vivos no planeta Terra dependem da água para
sua sobrevivência. O planeta Terra é o único planeta
do sistema solar que tem água nos três estados (sólido,
líquido e gasoso), e as mudanças de estado físico
da água no ciclo hidrológico são fundamentais e
influenciam os processos biogeoquímicos nos ecossistemas terrestres
e aquáticos. Somente 3% da água do planeta está
disponível como água doce. Destes 3%, cerca de 75% estão
congelados nas calotas polares, em estado sólido, 10% estão
confinados nos aqüíferos e, portanto, a disponibilidade
dos recursos hídricos no estado líquido é de aproximadamente
15% destes 3%. A água, portanto, é um recurso extremamente
reduzido. O suprimento de água doce de boa qualidade é
essencial para o desenvolvimento econômico, para a qualidade de
vida das populações humanas e para a sustentabilidade
dos ciclos no planeta.
A água nutre as florestas, mantêm a produção
agrícola, mantêm a biodiversidade nos sistemas terrestres
e aquáticos. Portanto, os recursos hídricos superficiais
e os recursos hídricos subterrâneos são recursos
estratégicos para o homem e todas as plantas e animais.
O ciclo hidrológico é o princípio unificador fundamental
referente à água no planeta, sua disponibilidade e distribuição.
O ciclo hidrológico opera em função da energia
solar que produz evaporação dos oceanos e dos efeitos
dos ventos, que transportam vapor d’água acumulado para
os continentes. A velocidade do ciclo hidrológico variou de uma
era geológica a outra, bem como a proporção de
águas doces e águas marinhas.
As características do ciclo hidrológico não são
homogêneas, daí a distribuição desigual da
água no planeta. Há 26 países com escassez de água
e pelo menos 4 países (Kuwait, Emirados Árabes Unidos,
Ilhas Bahamas, Faixa de Gaza – território palestino) com
extrema escassez de água (entre 10 e 66 m3/habitante). A Tabela
I mostra os balanços hídricos por continente e a Tabela
II o balanço hídrico das principais bacias hidrográficas
do Brasil.
Tabela I – Balanço Hídrico de águas
superficiais por continente [1]
| Continente |
Precipitação
(Km3/ano) |
Evaporação
(Km3/ano) |
Drenagem (Km3/ano) |
| Europa |
8,290 |
5,320 |
2,970 |
| Ásia |
32,200 |
18,100 |
14,100 |
| África |
22,300 |
17,700 |
4,600 |
| América do Norte |
18,300 |
10,100 |
8,180 |
| América do Sul |
28,400 |
16,200 |
12,200 |
| Austrália/Oceania |
7,080 |
4,570 |
2,510 |
| Antártica |
2,310 |
0 |
2,310 |
| Total |
118,880 |
71,990 |
46,870 |
Tabela II - Balanço hídrico das principais bacias
hidrográficas do Brasil [2]
| Bacia Hidrográfica |
Área
(Km2) |
Média
da
Precipitação
(m3/s) |
Média
de descarga
(m3/s) |
Evapotransp
(m3/s) |
Descarga/
Precipitação
(%) |
| Amazônica |
6.112.000 |
493.191 |
202.000 |
291.491 |
41 |
| Tocantins |
57.000 |
42.387 |
11.300 |
31.087 |
27 |
| Atlântico Norte |
242.000 |
16.388 |
6.000 |
10.388 |
37 |
| Atlântico Nordeste |
787.000 |
27.981 |
3.130 |
24.851 |
11 |
| São Francisco |
634.000 |
19.829 |
3.040 |
16.789 |
15 |
| Atlântico Leste Norte |
242.000 |
7.78 |
670 |
7.114 |
9 |
| Atlântico Leste Sul |
303.000 |
11.79 |
3.710 |
8.081 |
31 |
| Paraná |
877.000 |
39.935 |
11.200 |
28.735 |
28 |
| Paraguai |
368.000 |
16.326 |
1.340 |
14.986 |
8 |
| Uruguai |
178.000 |
9.589 |
4.040 |
5.549 |
42 |
| Atlântico Sul |
224.000 |
10.515 |
4.570 |
5.949 |
43 |
| Brasil incluindo Bacia Amazônica |
10.724.000 |
696.020 |
251.000 |
445.020 |
36 |
O Brasil tem aproximadamente 16% das águas doces do planeta,
distribuídas desigualmente. A Figura 1 mostra a distribuição
dos recursos hídricos superficiais do Brasil em relação
à distribuição da população.
Figura 1 – Regiões hidrográficas
do Brasil e distribuição da população [3]

Água – desenvolvimento econômico
e estimativas do uso dos recursos hídricos
Sempre houve grande dependência dos recursos hídricos para
o desenvolvimento econômico. A água funciona como fator
de desenvolvimento, pois ela é utilizada para inúmeros
usos diretamente relacionados com a economia (regional, nacional e internacional).
Os usos mais comuns e freqüentes dos recursos hídricos são:
água para uso doméstico, irrigação, uso
industrial e hidroeletricidade. De 1900 a 2000, o uso total da água
no planeta aumentou dez vezes (de 500 km3/ano para aproximadamente 5.000
Km3/ano) (Figura 2). Os usos múltiplos da água aceleram-se
em todas as regiões, continentes e países. Estes usos
múltiplos aumentam à medida que as atividades econômicas
se diversificam e as necessidades de água aumentam para atingir
níveis de sustentação compatíveis com as
pressões da sociedade de consumo, a produção industrial
e agrícola.
Figura 2 – Tendências no consumo global de água,
1900-2000 [4]
A Tabela III mostra a retirada de água “per capita”
para diferentes continentes por atividade (para o ano 2000) [5]
Região |
Doméstico
m3/ano |
Industrial
m3/ano |
Agricultura
m3/ano |
Perdas em
reservatórios
m3/ano |
| Europa |
150 |
400 |
185 |
10 |
| União Soviética |
120 |
500 |
1.310 |
70 |
| Ásia |
75 |
150 |
5.585 |
25 |
| África |
50 |
100 |
400 |
85 |
| América do Norte |
260 |
2.000 |
1.050 |
110 |
| América do Sul |
20 |
200 |
190 |
35 |
| Oceania |
2.000 |
12.270 |
| De Mare (1976) [5] |
2.000 |
5.605 |
| Shiklomanov (1998) [8] |
2.025 |
4.089 |
| Shiklomanov (1998) [8] |
2.025 |
4.867 |
| Gleick (visão sustentável, 1997) [9] |
2.025 |
4.270 |
| Raskin et al. (com reformas legislativas e políticas no
uso) (1997) [10] |
2.050 |
|
Os impactos nos recursos hídricos
Os impactos quantitativos nos recursos hídricos são crescentes
e produzem grandes alterações nos estoques de águas
superficiais e subterrâneas. Há casos muito evidentes de
uso excessivo de recursos hídricos superficiais que resultaram
na redução quantitativa acentuada e em desastres de grandes
proporções. Exemplos disto são os problemas referentes
ao Mar de Aral [11, 12], à cidade do México [13] e a muitas
outras regiões do planeta, especialmente regiões urbanas.
Além dos impactos quantitativos, há muitos outros impactos
na qualidade da águas superficiais e subterrâneas que comprometem
os usos múltiplos e aumentam as pressões econômicas
regionais e locais sobre os recursos hídricos. Estes impactos
estão descritos na Tabela VI.
Tabela VI – Impactos das atividades humanas nos ecossistemas
aquáticos e valores/serviços dos recursos hídricos
em risco.
Atividade Humana Impacto nos ecossistemas aquáticos Valores/serviços
em risco
Construção de represas. Altera o fluxo dos rios e o transporte
de nutrientes e sedimento e interfere na migração e reprodução
de peixes. Altera habitats e a pesca comercial e esportiva.Altera os
deltas e suas economias.
Construção de diques e canais. Destrói a conexão
do rio com as áreas inundáveis. Afeta a fertilidade natural
das várzeas e os controles das enchentes.
Alteração do canal natural dos rios. Danifica ecologicamente
os rios. Modifica os fluxos dos rios. Afeta os habitats e a pesca comercial
e esportiva. Afeta a produção de hidroeletricidade e transporte.
Drenagem de áreas alagadas. Elimina um componente-chave dos ecossistemas
aquáticos. Perda de biodiversidade. Perda de funções
naturais de filtragem e reciclagem de nutrientes. Perda de habitats
para peixes e aves aquáticas.
Desmatamento do solo. Altera padrões de drenagem, inibe a recarga
natural dos aqüíferos, aumenta a sedimentação.
Altera a qualidade e a quantidade da água, pesca comercial, biodiversidade
e controle de enchentes.
Poluição não controlada. Diminui a qualidade da
água. Altera o suprimento de água. Aumenta os custos de
tratamento. Altera a pesca comercial. Diminui a biodiversidade. Afeta
a saúde humana.
Remoção excessiva de biomassa. Diminui os recursos vivos
e a biodiversidade. Altera a pesca comercial e esportiva. Diminui a
biodiversidade. Altera os ciclos naturais dos organismos.
Introdução de espécies exóticas. Elimina
espécies nativas. Altera ciclos de nutrientes e ciclos biológicos.
Perda de habitats e alteração da pesca comercial. Perda
da biodiversidade natural e estoques genéticos.
Poluentes do ar (chuva ácida) e metais pesados. Altera a composição
química de rios e lagos. Altera a pesca comercial. Afeta a biota
aquática. Afeta a recreação. Afeta a saúde
humana. Afeta a agricultura.
Mudanças globais no clima. Afeta drasticamente o volume dos recursos
hídricos. Altera padrões de distribuição
de precipitação e evaporação. Afeta o suprimento
de água, transporte, produção de energia elétrica,
produção agrícola e pesca e aumenta enchentes e
fluxo de água em rios.
Crescimento da população e padrões gerais do consumo
humano. Aumenta a pressão para construção de hidroelétricas
e aumenta a poluição da água e a acidificação
de lagos e rios. Altera os ciclos hidrológicos. Afeta praticamente
todas as atividades econômicas que dependem dos serviços
dos ecossistemas aquáticos.
Diversas fontes. Consolidado por Tundisi [12].
O aumento e a diversificação dos usos múltiplos,
o extenso grau de urbanização e o aumento populacional
resultaram em uma multiplicidade de impactos que exigem evidentemente
diferentes tipos de avaliação, novas tecnologias de monitoramento
e avanços tecnológicos no tratamento e gestão das
águas. Este último tópico tem fundamental importância
no futuro dos recursos hídricos, pois como já descrito
anteriormente, os cenários de uso aumentando e excessivo estão
relacionados com uma continuidade das políticas no uso e gestão
pouco evoluída conceitualmente e tecnologicamente.
Os resultados de todos estes impactos são muito severos para
as populações humanas, afetando todos os aspectos da vida
diária das pessoas, a economia regional e nacional e a saúde
humana. Estas conseqüências podem ser resumidas em:
. Degradação da qualidade da água superficial e
subterrânea.
. Aumento das doenças de veiculação hídrica
e impactos na saúde humana.
. Diminuição da água disponível per capita.
. Aumento no custo da produção de alimentos.
. Impedimento ao desenvolvimento industrial e agrícola e comprometimento
dos usos múltiplos.
. Aumento dos custos de tratamento de água.
Além destes impactos produzidos pelas atividades humanas, deve-se
também considerar que as mudanças globais em curso poderão
afetar drasticamente os recursos hídricos do planeta. Estas mudanças
globais, em parte resultantes da aceleração dos ciclos
biogeoquímicos e contribuição de gases de efeito
estufa para a atmosfera, também poderão interferir nas
características do ciclo hidrológico, afetar a temperatura
das águas superficiais de lagos, rios e represas, alterar a evapotranspiração
e produzir impactos diversos na biodiversidade. Estas mudanças
globais poderão ter efeitos na agricultura, na distribuição
da vegetação e conseqüentemente poderão alterar
a quantidade e qualidade dos recursos hídricos.
Um dos importantes problemas relativos aos impactos dos usos múltiplos
e a sua quantificação está na distribuição
compartilhada dos recursos hídricos nas bacias internacionais.
Há 19 bacias hidrográficas internacionais cujos recursos
hídricos são compartilhados por 5 ou mais países.
A bacia do Rio Danúbio, por exemplo, hoje é resultado
dos usos por 17 países (eram 12 em 1978). Estas bacias internacionais
geram grande número de problemas políticos complexos,
resultantes da disputa pelos recursos hídricos e usos múltiplos
por diferentes países. Conflitos internacionais com disputa pelos
recursos hídricos são resultado de animosidades religiosas,
disputas ideológicas, problemas fronteiriços e competição
econômica [14]. À medida que ocorre uma percepção
cada vez mais acentuada sobre os recursos hídricos e seu valor
econômico e social, mais acirrada se torna a disputa por recursos
hídricos internacionais (Tabela VII).
Tabela VII - Número de bacias internacionais por Continente
Continente |
Nações Unidas [15] |
Wolf et al. [16] |
| África |
57 |
60 |
| América do Norte e Central |
33 |
39 |
| América do Sul |
36 |
38 |
| Ásia |
40 |
53 |
| Europa |
48 |
71 |
| Total |
214 |
|
Problemas especiais referentes aos usos de
recursos hídricos
Água e produção de alimentos
O desenvolvimento socialmente justo de todo o planeta deve promover
a distribuição e o suprimento adequado de alimento para
todos os habitantes do planeta. A avaliação adequada dos
recursos hídricos necessários para duplicar a produção
de alimentos ainda não foi feita. Quais as fontes principais
de água disponíveis para produzir alimento, por região
ou continente? Ainda não há uma definição
muito clara sobre este problema, especialmente em continentes como a
América do Sul e África.
Grande parte da expansão na produção de alimentos
foi conseguida, principalmente, pelo aumento da área irrigada,
especialmente na Ásia e particularmente na Índia.
A produção agrícola depende da irrigação,
da precipitação natural e da água produzida por
aqüíferos subterrâneos utilizada para irrigação.
A utilização de água para irrigação
era de 2.500 Km3 em 1999. Sem essa água utilizada para irrigação,
a produção agrícola mundial estaria muito abaixo
da produção atual.
É fundamental o investimento em novas técnicas de irrigação
para melhorar o uso da água e economizar recursos hídricos
de forma adequada, nos diferentes continentes. Evidentemente, estes
usos de água dependem do tipo de solo e do clima, do tipo de
cultura e das características do ciclo hidrológico local
ou regional. A água requerida para produzir dietas básicas
com base em necessidades regionais varia de um mínimo de 640m3/pessoa/ano
para a África sub-sahariana, até um máximo de 1.830
m3/pessoa/ano para o continente norte-americano. Na América Latina
estes números são da ordem de 1.000m3/pessoa/ano.
Estes dados incluem água de irrigação e águas
de precipitação natural. Os requerimentos de água
para produção de várias culturas e tipos de alimento
variam enormemente. Por exemplo, para produção de 1Kg
de trigo são necessários 900 a 2000 Kg de água
e para produção de 1Kg de carne bovina são necessários
15.000 a 70.000 Kg de água. Custos do alimento estão relacionados
com os custos da irrigação e o volume de água utilizado
na produção.
Água para as regiões urbanas
O crescimento exponencial da população humana promoveu
uma enorme demanda sobre os recursos hídricos, aumentando significativamente
a necessidade de grandes volumes de água para suprir as populações
urbanas adequadamente sem causar danos à saúde pública.
A urbanização avançou sobre os mananciais e deteriorou
as fontes de suprimentos superficiais e subterrâneas. Os custos
do tratamento de água para produção de água
potável atingem altos valores especialmente se os mananciais
estão desprotegidos de florestas riparias e cobertura vegetal
suficiente nas bacias hidrográficas e se as águas subterrâneas
estão contaminadas. Estes custos variam de R$ 0,50 a R$ 80,00
ou R$ 100,00 dependendo da região, época do ano e da fonte.
De grande preocupação é a toxicidade dos mananciais,
o que pode aumentar os riscos à saúde humana e agravar
problemas principalmente de toxicidade crônica. Regiões
urbanas produzem grandes volumes de águas residuárias
de origem doméstica, esgotos não tratados que degradam
rios e lagos próximos e elevam os custos do tratamento. No Brasil
somente 20% dos esgotos municipais são tratados, produzindo um
vasto processo de eutrofização de rios, represas e lagos
naturais e águas costeiras.
Água e Saúde Humana
Existem muitas informações sobre os efeitos dos recursos
hídricos superficiais e subterrâneos deteriorados sobre
a saúde humana. Há diversas doenças de veiculação
hídrica que são conseqüências de organismos
que tem um ciclo de vida de alguma forma relacionado com águas
estagnadas, rios, represas, estuários ou lagos. Estas doenças,
em Continentes como América Latina, África e no Sudoeste
da Ásia, matam mais pessoas que todas as outras doenças
em conjunto [17]. As doenças que atingem os seres humanos a partir
da água poluída podem resultar de contaminação
em águas não tratadas (esgotos domésticos) por
contribuição de pessoas e animais infectados, animais
em regiões de intensa atividade pecuária (galo, aves,
suínos) ou por animais silvestres. As doenças de veiculação
hídrica aumentam de intensidade e distribuição
em regiões com alta concentração populacional,
por exemplo, em zonas periurbanas metropolitanas, e com o aumento de
despejos de atividades industriais, especialmente aqueles provenientes
das indústrias de processamento da matéria orgânica
(carne, laticínios, cana de açúcar). Fatores adicionais
de contaminação são os rios urbanos de pequeno
porte, com águas contaminadas e não tratadas que podem
funcionar como pólo de dispersão de doenças de
veiculação hídrica direta ou indiretamente. A eutrofização
de sistemas continentais e costeiros também é causa de
contaminação e aumento de doenças.
Inabilidade e mortes prematuras produzidas por doenças de veiculação
hídrica têm como conseqüência muitas perdas
econômicas, efeitos de curto e longo prazo.
Valoração dos Recursos Hídricos
Os ecossistemas apresentam funções que podem ser qualificadas
de “serviços” e benefícios à população
humana e a outras espécies. Por exemplo, a produção
de alimentos, a reciclagem de nitrogênio e fósforo pelos
ecossistemas aquáticos, a produção de alimento
e o suprimento de água para abastecimento público, podem
ser considerados “serviços” proporcionados pelos
recursos hídricos. Esta valorização pode ser feita
em função do “capital natural” que pode ser
a biodiversidade ou funcionamento de uma área alagada como promotor
do saneamento. Os estoques de recursos hídricos superficiais
ou subterrâneos podem ser considerados um capital que é
crítico ao funcionamento do planeta, contribuindo para o bem
estar e a melhor qualidade de vida da população [18].
O conjunto de serviços proporcionados pelos recursos hídricos
é de aproximadamente U$ 1700 x109 por ano (para uma área
de 200x106 hectares de rios e lagos).
Esta valoração está ainda nos estágios iniciais,
uma vez que a dimensão completa de todos os “serviços”
é difícil e complexa e há enormes diferenças
regionais e locais nesses valores.
Valores recreacionais, estéticos e custos do tratamento natural
variam bastante. Esforços precisam ser definidos para avaliações
locais, de diferentes ecossistemas aquáticos, de águas
superficiais e recursos hídricos subterrâneos. Entretanto,
esta valoração é fundamental para definir inclusive
os custos de preservação e da recuperação
e como compreensão para antecipar impactos. É fundamental
avaliar os custos dos impactos sobre o capital natural e os “serviços”
proporcionados por este capital.
O futuro dos recursos hídricos
Recursos Hídricos representam um estoque de recursos fundamental
para a manutenção da vida no planeta Terra e também
para o funcionamento dos ciclos e funções naturais. Recursos
Hídricos beneficiam direta ou indiretamente a população
humana, principalmente se levarmos em conta os vários benefícios
promovidos para o bem estar da população humana e para
a sobrevivência de organismos.
Uma nova ética é necessária para enfrentar a escassez
de recursos hídricos no futuro e para tratar este recurso como
um componente fundamental dos ciclos do planeta Terra.
Além desta nova ética que compreende uma visão
mais ampla do recurso, que inclui valores estéticos e culturais,
é necessário um conjunto de alterações conceituais
na gestão, como a descentralização da gestão,
implantando os comitês de bacias hidrográficas, desenvolvendo
mecanismos de integração institucional e ampliando a capacidade
preditiva do sistema. A gestão ambiental e especialmente a gestão
dos recursos hídricos no século 20 foi dirigida essencialmente
para uma ação setorial (pesca, hidroeletricidade, navegação),
em nível local (rio, lago, represa, água subterrânea)
e de resposta a crises. No século 21 esta gestão deverá
sofrer uma transição para uma gestão integrada
(usos múltiplos), em nível de ecossistema (bacia hidrográfica)
e preditiva (ou seja, capacidade de antecipação de problemas,
desastres e impactos). Isto implica também em avanços
tecnológicos essenciais: monitoramento avançado em tempo
real, treinamento de gerentes de recursos hídricos com visão
integrada e integradora, capacidade de análise ecológica
e modelagem matemática e construção de cenários
adequados com avaliação de tendências, impactos
e análises de risco.
Acima de tudo, o futuro dos recursos hídricos depende de uma
integração entre o conhecimento (diagnóstico, banco
de dados, sistemas de informação) ou seja, dados biogeofísicos
e a sócio economia regional, incluindo-se as tendências
e a construção de cenários.
Para evitar desperdícios, economizar água, melhorar os
custos do tratamento e desenvolver arcabouços legais e institucionais
é necessário considerar o conjunto de recursos hídricos
– águas continentais superficiais, águas subterrâneas,
águas costeiras e sua sustentabilidade no espaço e tempo
incluindo valores estéticos, segurança coletiva, oportunidades
culturais, segurança ambiental, oportunidades recreacionais,
oportunidades educacionais, liberdade e segurança individual
[12, 19].
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