Recursos
energéticos, meio ambiente e desenvolvimento
Ennio Peres da Silva
João Carlos Camargo
Alexandre Sordi
Ana Maria Resende Santos
Introdução
Energia é um insumo essencial para os seres
vivos. Seus metabolismos dependem de seu fornecimento regular, obtido
através da ingestão de matéria orgânica formada
principalmente de cadeias moleculares de carbono e hidrogênio.
Pode-se dizer que a necessidade mais básica dos seres vivos é
a busca de energia para manter seus corpos em funcionamento. Esse aspecto,
o atendimento da necessidade fisiológica, predominou na história
do homem até ele descobrir que poderia controlar formas de energia
que lhe seriam úteis como o fogo, que representou um marco do
domínio do homem sobre as forças naturais, e o uso da
energia térmica para cozinhar e aquecer-se.
Em seguida, a domesticação dos animais propiciou ao homem
a energia mecânica para o transporte, a agricultura, etc. Há
alguns milênios, a energia hidráulica dos rios e a eólica
passaram a ser utilizadas. No entanto, somente com o advento da produção
capitalista, há apenas três séculos, é que
a energia assumiu conotação diferente e fundamental na
substituição de homens e animais pelas máquinas.
Desde o domínio do fogo há 750.000 anos até o advento
da revolução industrial não houve grande evolução
na forma do homem utilizar a energia. Porém, com o vertiginoso
processo de industrialização, a necessidade de energia
aumentou e novas fontes primárias, com maior densidade energética,
foram introduzidas. Desse modo, a introdução do carvão
mineral marcou o fim da era da energia renovável representada
pela madeira e os parcos aproveitamentos hidráulicos e eólicos,
para iniciar-se a era não renovável da energia, a era
dos combustíveis fósseis.
A descoberta de um vetor energético como a eletricidade e a invenção
das máquinas elétricas no século XIX, juntamente
com a introdução dos veículos automotores, lançaram
as bases para a introdução da moderna sociedade de consumo,
caracterizada por uma intensidade energética nunca vista na história
da humanidade.
Dessa forma, foram necessários novos combustíveis de maior
poder energético, sendo o petróleo, o “ouro negro”,
o candidato que reuniu essas propriedades. Iniciou-se, assim, uma nova
fase da utilização dos combustíveis para extração
de energia, que pode ser chamada de “fase líquida”,
que perdura até os dias de hoje. Mais recentemente, após
a Segunda Guerra Mundial, a energia nuclear parecia uma alternativa
promissora para a geração de energia elétrica,
mas sofreu um grande revés por conta do acidente nuclear em Chernobyl
em 1986 na Ucrânia.
O impacto da geração de
energia
De uma forma ou de outra, todas as atividades humanas sobre a Terra
provocam alterações no meio ambiente em que vivemos. Muitos
destes impactos ambientais são provenientes da geração,
manuseio e uso da energia. A principal razão para esta expressiva
participação dos processos energéticos pode ser
observada no fato de que em 1998, segundo as Nações Unidas
(1), o consumo mundial de energia primária
proveniente de fontes não renováveis (petróleo,
carvão, gás natural e nuclear) correspondeu a aproximadamente
86% do total, cabendo apenas 14% às fontes renováveis.
Além disto, de acordo com a Agência Internacional de Energia
(2), do total de energia consumido em 1999 cerca
de 53% ocorreu nos 24 países denominados pelas Nações
Unidas como de economias desenvolvidas, ficando os cerca de 100 demais
países, denominados de economias em transição ou
países em desenvolvimento, com os 47% restantes.
Esta enorme dependência de fontes não renováveis
de energia tem acarretado, além da preocupação
permanente com o esgotamento destas fontes, a emissão de grandes
quantidades de dióxido de carbono (CO2)
na atmosfera, que em 1996 foi da ordem de 23 bilhões de toneladas
(3), aproximadamente o dobro da quantidade emitida
em 1965 (a taxa média de crescimento desta emissão verificada
na década de 90 foi de 0,5% ao ano). Como conseqüência,
o teor de dióxido de carbono na atmosfera tem aumentado progressivamente
(Figuras 1 e 2), levando muitos especialistas a acreditarem que o aumento
da temperatura média da biosfera terrestre, que vem sendo observado
há algumas décadas, seja devido a um “Efeito Estufa”
provocado por este acréscimo de CO2 e de outros gases na atmosfera,
já denominados genericamente “gases de efeito estufa”,
conhecidos mundialmente pela sigla GHG (Greenhouse Gases).
Figura 1- Evolução do teor de gás
carbônico na atmosfera (4)

Figura 2- Evolução do teor de gás carbônico
na atmosfera entre 1980 e 1998 (5)
Se por um lado não há ainda entre os especialistas
um consenso sobre a real existência deste “Efeito Estufa”,
por outro a preocupação com este crescimento do teor de
GHG na atmosfera começa a fazer parte de discussões internacionais
(Rio-92, Kioto-97 e Bonn-2001), a ponto de inúmeros países,
notadamente aqueles que mais contribuem com as emissões destes
gases, já se comprometerem com algum tipo de controle destas
emissões, mesmo que até o momento estes compromissos tenham
ficado mais ao nível da retórica do que terem provocado
ações efetivas dos governos neste sentido.
Os estudos realizados em escala global para reduzir-se a taxa de crescimento
dos teores de GHG na atmosfera têm apontado para uma série
de procedimentos de curto, médio e longo prazo, que vão
desde a substituição de combustíveis fósseis
(muitos países estão implementando a estratégia
de substituir o uso de carvão e/ou derivados de petróleo
pelo gás natural, procurando reduzir também a emissão
dos demais poluentes associados a estes energéticos), passando
pela introdução de medidas que tornam mais eficiente o
uso da energia e pela criação progressiva de medidas legislativas
de contenção de emissões nas grandes cidades (como
a da Califórnia, USA (6)),
até investimentos pesados no desenvolvimento das fontes renováveis
de energia (como a energia eólica e a solar) e na produção
de combustíveis denominados "limpos" (como aqueles
derivados da biomassa e o hidrogênio), com baixa emissão
de poluentes e/ou nenhuma liberação de CO2.
Deve-se observar que a redução (ou diminuição
do crescimento) dos impactos ambientais causados pelo uso intensivo
das fontes não renováveis de energia, não se considerando
qualquer perda na qualidade de vida alcançada com sua utilização,
pode ser obtida através de ações do lado do consumo,
pelo uso mais eficiente desta energia, e do lado da oferta, pelo aumento
percentual da participação das fontes renováveis
de energia. Evidentemente que os melhores resultados advirão
da implementação simultânea destas duas abordagens.
Do ponto de vista do incremento do uso das fontes renováveis
de energia, as medidas que possibilitarão uma participação
mais significativa destas fontes no consumo mundial dizem respeito à
otimização e melhor aproveitamento das fontes tradicionais,
como hidráulica (aproveitamento de pequenas centrais, uso da
energia hidroelétrica secundária, fora do pico, redução
das perdas de transmissão, etc.) e de biomassa (uso de resíduos
agrícolas, aproveitamento de lixo e esgoto, etc.), bem como ao
aumento da competitividade das fontes alternativas de energia, como
a solar e a eólica, com tecnologias já consolidadas, e
outras como das ondas e do aproveitamento do gradiente térmico
dos oceanos (OTEC), que ainda necessitam de investimentos em pesquisa.
É fácil perceberque o incremento do uso das fontes renováveis
trará não apenas os benefícios ambientais mencionados,
mas também uma diversificação no uso das fontes
de energia, reduzindo-se os riscos de descontinuidade de abastecimento,
obtendo-se ainda maior competitividade e preços mais equilibrados.
Deve-se observar também que, de todas estas fontes renováveis
citadas, apenas a biomassa permite a obtenção direta de
combustíveis, enquanto as demais fornecem como primeiro produto
a eletricidade. Se por um lado este fato não tem grande relevância
para a geração estacionária de energia, praticamente
todo o setor de transportes depende do suprimento de combustíveis;
isto reduz significativamente as alternativas de fontes renováveis
disponíveis.
No caso específico deste setor, sua participação
no consumo mundial de energia situa-se em torno de 20%, correspondendo
também a algo desta ordem sua participação no total
das emissões globais de CO2. No Brasil,
o setor de transportes apresenta semelhança com a participação
no total do consumo (20,6% da energia total em 1999, segundo o Balanço
Energético Nacional 2000 (7)
), porém, em vista deste setor ser o responsável pelo
uso de mais da metade dos combustíveis derivados do petróleo,
cuja participação no total de emissões de CO2
do país é da ordem de 80% (8),
conclui-se que o setor de transporte contribui com algo da ordem de
40% das emissões totais brasileiras.
Outra característica importante do setor de transportes é
que, além de ser um dos principais emissores de GHG, a concentração
de veículos nas grandes cidades faz com que localmente os impactos
ambientais causados pela queima de combustíveis fósseis
sejam muito mais significativos, pela concentração de
poluentes praticamente no perímetro urbano dos municípios
ou, pior ainda, em algumas áreas mais restritas, como as regiões
centrais das cidades onde, além disso, em geral existe pouca
circulação do ar pela presença de grande número
de prédios e edifícios. De fato, o uso de combustíveis
para transporte no meio urbano tem sido o principal fator de comprometimento
da qualidade do ar das grandes cidades, em que pese o fato de nas duas
últimas décadas ter havido reduções significativas
na emissão de poluentes como monóxido de carbono (CO),
dióxido de enxofre (SO2) e óxidos
de nitrogênio (NOx) provenientes da queima de derivados de petróleo
em motores de veículos. No caso do dióxido de carbono
(CO2), ao contrário dos demais, as emissões
permaneceram com índices crescentes, uma vez que as eficiências
dos veículos não experimentaram avanço equivalente.
Pequenas partículas suspensas são uma mistura de partículas
de combustão primária e produtos da conversão secundária
como os aerossóis, sulfatos e nitratos. Em muitas partes do mundo
a poeira urbana levada pelo vento pode ser também significante
colaboradora para as partículas suspensas. Essas partículas
são depositadas profundamente nos pulmões, onde sua remoção
é lenta e sua capacidade de causar dano é reforçada.
Elas também carregam traços de metais adsorvidos e hidrocarbonetos
cancerígenos para o interior dos pulmões, intensificando
o potencial de danos à saúde. Estudos dos efeitos à
saúde humana causados pela poluição aérea
têm se concentrado nas pequenas partículas. Além
disso, há poucas medições dessas partículas
na maioria das cidades, sendo considerada a determinação
da quantidade de partículas menores que 10 microgramas (PM10)
um melhor indicador que os níveis totais simples de partículas.
No final da década de 90 as concentrações médias
anuais de PM10 nas cidades da América do Norte, Europa Ocidental
e do Japão situaram-se entre 30 a 45 microgramas por metro cúbico.
A norma americana, por exemplo, permite até 50 microgramas por
metro cúbico. As emissões brasileiras situam-se em torno
de 70 microgramas por metro cúbico (9).
Há ainda os problemas relacionados aos níveis de dióxido
de nitrogênio e do ozônio que excedem as normas em muitas
cidades, particularmente aquelas com abundância de radiação
solar como Los Angeles (EUA) e Atenas (Grécia). Evidências
recentes sugerem que pequenas partículas (menores que 2,5 microgramas)
podem ser melhores indicadores de doenças, o que levou os Estados
Unidos a formular regulação sobre essas emissões.
Este enfoque sobre emissões de partículas cada vez menores
tem trazido ao material particulado do Diesel uma atenção
crescente. Diferente da gasolina, o Diesel produz uma significante quantidade
de emissões de partículas que não são apenas
menores, mas podem conter propriedades químicas que as tornam
mais perigosas. Isso faz crescer o questionamento sobre o futuro dos
veículos a ciclo Diesel, mesmo que esses veículos sejam
ligeiramente mais eficientes e de custo mais baixo que os a gasolina.
Desde a década de 80 estudos revelaram que não há
um limiar no qual a concentração de partículas
abaixo desse limite não ocasionaria danos à saúde.
Identificou-se apenas que os efeitos danosos ao homem dão-se
na razão direta da concentração dessas partículas,
ou seja, para concentrações menores, menores danos e vice-versa.
Até o início da década de 90, a principal fonte
de emissões de chumbo por todo o planeta era o chumbo tetraetila,
usado como aditivo para aumentar a octanagem da gasolina. Mas quase
todos os países têm agora planos de removê-lo da
gasolina. Um significante número de crianças em muitos
países industrializados e em desenvolvimento tem altos níveis
de chumbo no sangue, o que pode levar ao atraso do desenvolvimento cognitivo
(inteligência).
As cidades dos países em desenvolvimento têm concentrações
médias de poluentes muito maiores que as cidades dos países
industrializados. Em cidades da China e da Índia, as médias
parecem estar próximas de 200 microgramas por metro cúbico
de PM10, embora haja muita variação de acordo com a estação
do ano e da cidade. Tais concentrações devem estar causando
mortes prematuras significantes – talvez 15% ou mais acima dos
níveis anteriores.
A Tabela 1 apresenta as estimativas recentes dos impactos para a saúde
da geração de energia elétrica com carvão
e gás natural equipadas com a melhor tecnologia de controle disponível.
Para os ciclos combinados a gás natural, os únicos custos
significantes à saúde são aqueles relacionados
com as emissões de óxidos de nitrogênio (NOx) e
estes custos são relativamente baixos (tipicamente cerca de 5%
do custo de geração). Mas para o carvão o custo
estimado para a saúde (principalmente devido ao dano causado
pelos particulados) é elevado e comparável ao custo de
geração.
Tabela 1: Emissões de poluentes aéreos
e estimativa dos custos à saúde para usinas termoelétricas
equipadas com as melhores tecnologias de controle disponíveis
Nota: Estes cálculos foram realizados como parte do Programa
Externe da Comissão Européia. Os estudos estimaram os
valores econômicos dos impactos à saúde estimando
a magnitude da disposição a pagar das pessoas para evitar
os efeitos adversos à saúde. Os custos estimados à
saúde mostrados são os valores médios; o intervalo
de confiança 68% está entre 0,25 e 4 vezes o custo médio
(10).
Por tudo isto é que grandes cidades como Los Angeles, Cidade
do México, Tókio, São Paulo e outras vêm
adotando e estudando a implantação de diversas medidas
buscando controlar este problema, que vão desde alterações
técnicas redutoras das emissões veiculares, tais como
o uso de aditivos especiais à gasolina, uso de catalisadores,
incremento na utilização do gás natural, até
medidas de restrição ao tráfego de veículos
em determinadas áreas em certas épocas do ano, como o
denominado "rodízio" de veículos já implementado
na cidade de São Paulo desde 1995, pedágio eletrônico
em determinados locais da cidade, controle rigoroso do nível
de emissão dos motores da frota com pesadas multas para veículos
fora de especificação e imposto adicional proporcional
ao nível de emissão do veículo, as três últimas
ainda em estudo.
Além destas medidas, têm surgido algumas propostas mais
radicais, como ocorreu na cidade de Los Angeles, onde o CARB (California
Air Resources Board) determinou aos fabricantes de veículos automotivos
que participam daquele mercado a obrigatoriedade de introduzirem, a
partir de 2003, um número crescente de veículos com características
de emissão zero (ZEV – Zero Emission Vehicles), como mostrado
na Figura 3.
Figura 3- Programa de introdução de veículos
ZEV no mercado da Califórnia, E.U.A.
(11)
Atualmente apenas carros elétricos satisfazem esta condição
de emissão zero (emissão zero no que diz respeito ao sistema
de propulsão), havendo como únicas alternativas o uso
de baterias eletroquímicas ou células a combustível.
No primeiro caso os veículos a baterias já são
conhecidos há muito tempo, e sua tecnologia tem sido bastante
estudada, havendo modelos comerciais operando em várias partes
do mundo. Entretanto alguns problemas técnicos como o tempo de
recarga das baterias e sua viabilidade econômica persistem. No
segundo caso, ao contrário, a tecnologia das células a
combustível é bastante recente, ainda com um grande potencial
de aperfeiçoamento, onde o uso do hidrogênio como um combustível
"limpo" aparece como uma alternativa interessante, principalmente
se produzido a partir de fontes renováveis de energia, não
originando em todo seu ciclo de geração e utilização
qualquer composto de carbono.
Perspectivas para novas tecnologias
de geração e seus impactos ao meio ambiente
A sustentabilidade no suprimento de energia é o grande desafio
que se coloca para o futuro da humanidade. Aliado a isso, outro desafio
de tal envergadura é o atendimento da população
sem acesso a energia elétrica. É notável que aproximadamente
1,6 bilhões de pessoas ainda não têm acesso à
energia elétrica ou outras formas de energia comercial e que
os 20% mais pobres usem somente 5% do total de energia consumida no
mundo. Globalmente, a demanda por energia está aumentando em
sintonia com o desenvolvimento socioeconômico. Além disso,
há grandes disparidades no nível de consumo, não
só entre diferentes países, mas também entre ricos
e pobres no mesmo país.
Segundo as conclusões do World Energy Outlook, a demanda primária
de energia mundial e as emissões de carbono crescerão
respectivamente 65% e 70% entre 1995 e 2020 e os combustíveis
fósseis responderão por mais de 90% da demanda primária
de energia em 2020 (12).
Os danos ambientais das fontes não renováveis já
são bem conhecidos e grandes esforços no mundo têm
sido feitos para a paulatina introdução das energias renováveis
no cenário energético vindouro, conforme já mencionado.
Países como Alemanha já lançaram programas ambiciosos
de substituição da geração de energia elétrica
com usinas nucleares por fontes renováveis de energia, como a
eólica.
Quanto ao efeito estufa, várias conferências têm
sido realizadas para atingir um acordo entre os países que possuem
as maiores cotas de emissão dos gases de efeito estufa. O protocolo
de Kyoto estabeleceu em 1997 limites para a emissão de gases
de efeito estufa para os países signatários do acordo.
Para atingir os objetivos do acordo, os países pertencentes à
Agência Internacional de Energia (IEA) chegaram a quatro alternativas:
- Menor uso dos serviços de energia com aquecimento, iluminação,
transporte, motores e secagem industrial;
- Diminuir a quantidade de energia necessária para produzir uma
unidade de serviço de energia, através do desenvolvimento
e uso de sistemas, tecnologias de uso final e suprimento energético
mais eficientes;
- Mudança dos combustíveis fósseis para os combustíveis
não-fósseis e dos hidrocarbonetos de molécula maior
para os hidrocarbonetos de molécula menor;
- Remover o carbono dos gases de saída da combustão e
armazená-lo.
A segunda opção implica no desenvolvimento de novas tecnologias
de conversão energética que sejam mais eficientes, ou
seja, que consigam retirar mais energia das fontes primárias,
e que possuam menor impacto ambiental. Por isso, o desenvolvimento de
novas tecnologias de conversão e os melhoramentos nas atualmente
utilizadas são os objetivos principais do empenho de governos,
indústrias e da sociedade em geral para atingir a sustentabilidade.
A energia nuclear
Atualmente a energia nuclear responde por 6% da energia e 16% da produção
elétrica produzida no mundo. A maioria dos analistas projeta
que a contribuição da energia nuclear para a energia global
não crescerá e provavelmente declinará no futuro
próximo. As causas apontadas são os custos maiores que
o originalmente esperado, o aumento da competição das
tecnologias alternativas e a perda da confiança do público
devido às preocupações em torno da segurança,
manejo do lixo radiativo e proliferação de armas nucleares.
Já que a energia nuclear pode fornecer eletricidade sem emitir
poluentes aéreos e gases de efeito estufa, há um empenho
de seus defensores em demonstrar novas alternativas tecnológicas
de reatores mais seguros e de menor custo. Diferentemente dos reatores
de Chernobyl, os reatores de água leve (LWR) empregados na maioria
das instalações no mundo não têm tido grandes
problemas de segurança, apesar da recorrente ocorrência
de pequenos incidentes. No entanto, permanecem as dúvidas sobre
a proliferação de armas nucleares.
Novas perspectivas para o aproveitamento
dos combustíveis fósseis
O carvão ainda é a fonte de energia mais utilizada para
geração de energia elétrica e suas reservas mostram
que não há uma previsão de esgotamento pelo menos
nos próximos dois séculos. No entanto, conforme mostrado
anteriormente, é uma das mais poluentes fontes primárias.
Por isso, as estratégias de curto prazo estão voltadas
para o desenvolvimento de combustíveis sintéticos e novas
tecnologias de geração. As novas tecnologias incluem a
cogeração (geração de calor e energia elétrica
combinados) e poligeração, que abrange a produção
simultânea de combustíveis sintéticos, eletricidade,
calor de processo e produtos químicos.
Podemos identificar claramente, no futuro próximo, uma opção
energética pelo gás natural, um combustível bem
menos poluente que o carvão e o petróleo, sendo que as
turbinas a gás com ciclo combinado representam a geração
termoelétrica mais eficiente.
As tecnologias avançadas mais promissoras de cogeração
e geração termoelétrica para o curto (5 anos) e
médio (10 anos) prazos incluem as tecnologias baseadas em turbinas
a gás, ciclo combinado a carvão com gaseificador integrado
(IGCC) e ciclo combinado a gás natural (NGCC). As novas tecnologias
já comercialmente disponíveis de turbinas a gás
permitem eficiência de até 54% na conversão. As
tecnologias IGCC, em torno de 40% (Tabela 2).
Para um horizonte um pouco maior, grandes esperanças estão
sendo depositadas nas fontes renováveis de energia, principalmente
a energia eólica e a solar. Ambas apresentam um significativo
crescimento nos últimos anos (Tabela 3). A energia eólica
já atingiu maturidade suficiente em alguns países, colocando-a
em condições competitivas com as fontes tradicionais não
renováveis.
Tabela 2 - Desempenho das novas tecnologias para uso de carvão
e de GN

Fonte: WEA, 2000
A economia do hidrogênio
Nota-se claramente a evolução dos combustíveis
na história humana. Por um grande período, da aurora das
civilizações até a era industrial, predominou a
fase sólida com a madeira e, posteriormente, o carvão.
Há pouco mais de um século, o aproveitamento do petróleo
inaugurou a fase líquida já referida anteriormente. Atualmente
nota-se um empenho pela utilização do gás natural
e futuramente o hidrogênio. Com isso, delineia-se no horizonte
energético a “fase gasosa”. Essa evolução
na utilização dos combustíveis é citada
por muitos autores como a descarbonização da economia,
pois os combustíveis utilizados têm cadeias carbônicas
cada vez menores (Figura 4). Este é um fato importante que tem
sido percebido nos últimos duzentos anos através de pesquisas,
ou seja, que o mundo tem perseguido uma progressiva descarbonização
da matriz energética. Seguindo essa tendência, a economia
baseada no hidrogênio como fonte energética representaria
o fim da era do carbono como fonte de energia.
Tabela 3 - Estado atual e custos potenciais futuros das tecnologias
de energias renováveis.
(clique na tabela para ampliar)
Figura 4 – Descarbonização ou mudança
da intensidade do carbono da energia primária para o mundo. A
intensidade de carbono é calculada como a relação
da soma do conteúdo carbonífero pela soma do conteúdo
energético de todas as fontes de energia primária (13)
Há um consenso na comunidade mundial de que a
era do petróleo barato está terminando. Os poços
de petróleo que estão sendo descobertos fazem parte de
bacias off-shore com custos crescentes de extração. As
grandes bacias petrolíferas se encontram em países do
Oriente Médio, onde a instabilidade política não
garante a tranqüilidade almejada pelo Ocidente. Além disso,
as questões ambientais associadas à utilização
dos combustíveis fósseis descritas anteriormente são
motivos de preocupação da comunidade internacional. Esses
fatores implicarão inevitavelmente em custos crescentes para
a sociedade, cuja economia está baseada no petróleo.
Após a Crise do Petróleo em 1973 e 1979 houve um esforço
para se encontrar alternativas para a produção de energia
no mundo. A ênfase foi dada na busca de novas fontes de energia
e na melhoria dos processos de conversão para diminuir o consumo
de petróleo. No entanto, a queda do preço do petróleo
na década de 80 e 90 arrefeceu o empenho demonstrado após
a crise de 1973. O orçamento nas pesquisas para alternativas
para o petróleo diminuiu sensivelmente.
Mas, apesar disso, foram lançadas sementes de novas tecnologias
de conversão que agora começam a frutificar. Tecnologias
como a solar fotovoltaica, geradores eólicos e células
a combustível começam a penetrar no mercado. Os geradores
eólicos já apresentam custos competitivos com as formas
tradicionais de geração de energia elétrica. Nos
últimos anos a capacidade eólica mundial cresceu num ritmo
anual de 27,75% (14).A
European Wind Association prevê que a energia eólica possa
produzir 10% da eletricidade mundial até 2020 (15).
A indústria eólica é um dos segmentos de mercado
com crescimento mais rápido na economia mundial. Atualmente há
cerca de 15 GW de energia eólica instalada no mundo, dos quais
10 GW está na Europa. A Dinamarca já produz 14% de seu
consumo de energia elétrica através do vento (16).
Grandes esperanças estão depositadas também na
tecnologia das células a combustível. Desenvolvidas a
princípio para as naves tripuladas que foram ao espaço
na década de 60, logo se viuvantagens que poderiam ser utilizadas
na produção de energia elétrica na Terra.
A célula a combustível é um dispositivo eletroquímico
que transforma energia química de um combustível diretamente
em eletricidade. O hidrogênio, em combinação com
o oxigênio do ar, resulta em energia elétrica, calor e
água, num processo de eletrólise reversa. Sua eficiência
de transformação é superior aos dispositivos tradicionais,
que utilizam a combustão como uma etapa térmica intermediária
para retirar energia de um combustível fóssil. Seu grande
apelo ambiental reside no fato dela diminuir ou até mesmo não
emitir os gases que são tradicionalmente liberados pelas máquinas
térmicas tradicionais.
O combustível para as células é o hidrogênio.
Atualmente a maior parte do hidrogênio obtido mundialmente provém
das fontes fósseis. Através da reforma do gás natural
são produzidos cerca de 48% do hidrogênio no mundo; o petróleo
e o carvão são responsáveis por 30% e 18% da produção,
respectivamente. A eletrólise é responsável por
4% dessa produção (17).
Mas o hidrogênio também pode ser produzido através
das fontes renováveis, como solar, hidráulica, eólica
e a biomassa. O diagrama da figura 6 ilustra simplificadamente os processos
de obtenção do hidrogênio através das fontes
renováveis.
Particularmente no caso da biomassa, essa opção é
extremamente interessante para o Brasil, já que o país
é o maior produtor mundial de cana-de-açúcar. As
duas formas de obtenção do hidrogênio dessa fonte
são a reforma vapor do etanol e a gaseificação
do bagaço.
A reforma é definida como a conversão catalítica
e endotérmica de um combustível líquido, sólido
ou gasoso disponível comercialmente para um gás combustível
(H2). A maioria dos processos utiliza hidrocarbonetos
leves para a extração do hidrogênio. Os hidrocarbonetos
leves são aqueles com cadeias carbônicas situadas entre
o metano e a nafta, com pontos de ebulição inferiores
a 250°C. Esses compostos podem reagir com a água a temperaturas
entre 800 e 900°C em presença de catalisadores, resultando
numa mistura de gases contendo principalmente H2,
CO, CO2 e CH4 (18).
Essa reação resulta em um produto gasoso de composição
típica aproximada de 62,6% de H2, 21,4%
de CO2, 12,5% de H2O e 3,5%
de N2 em volume (19).

Figura 6: Diagrama simplificado da obtenção do
hidrogênio através das fontes renováveis
A gaseificação é um processo de
conversão termoquímica realizado a altas temperaturas,
envolvendo oxidação parcial dos elementos combustíveis
de constituição da biomassa. Os gases produzidos na gaseificação
são formados por CO, CO2, H2,
CH4, traços de hidrocarbonetos pesados,
água, nitrogênio e várias outras substâncias
- pequenas partículas de coque, cinza, alcatrão e óleos,
que são consideradas contaminantes. A composição
desse gás de síntese depende do tipo de gaseificador e
das características do gaseificador (20).
Mesmo utilizando hidrocarbonetos como combustíveis primários,
as emissões de gases como dióxido de carbono, óxidos
de nitrogênio e enxofre são menores ou inexistentes utilizando
células a combustível do que as formas tradicionais de
queima desses combustíveis para gerar eletricidade. Elas também
produzem menor nível de ruído por ser uma forma estática
de conversão de energia.
Algumas tecnologias já se encontram em fase comercial e outras
ainda estão sendo desenvolvidas. Grandes empresas privadas e
agências governamentais estão investindo nesta tecnologia.
A grande desvantagem destes sistemas é seu custo atual que, entretanto,
deverá ser significativamente reduzido com os avanços
tecnológicos (só recentemente está-se investindo
recursos expressivos nesta tecnologia) e com os ganhos de escala de
produção.
Considerações
finais sobre energia e desenvolvimento
O tema energia tem um significado importante no debate da questão
ambiental e do desenvolvimento sustentável. Isto porque para
o desenvolvimento econômico a energia é um dos insumos
básicos. Ela não é apenas um componente da infra-estrutura
industrial de um país, mas é também de outros setores
como, por exemplo, o setor de transportes, telecomunicações,
comércio e educação. Por outro lado, no que diz
respeito à questão ambiental, vários desastres
ecológicos e alterações no meio ambiente têm
relação estreita com o suprimento de energia surgindo,
portanto, várias críticas às teorias de desenvolvimento
existentes.
O conceito de desenvolvimento até a década de 30, de acordo
com Mota (21) , estava
relacionado à produção de bens materiais, ou seja,
evoluir significava produzir mais e o mercado tinha como função
a distribuição destes produtos. Se, por um lado, este
tipo de desenvolvimento levou a grandes transformações
econômicas e políticas, com a revolta contra o reinado
e a criação de instituições que substituíram
o poder absoluto do rei, por outro lado trouxe conflitos e contradições,
manifestados nas condições precárias de vida da
maior parte da população.
Após a Segunda Guerra Mundial o conceito de desenvolvimento passa
a estar relacionado ao bem-estar social, visto que este conceito passa
a ser identificado com direitos sociais, segurança social e políticas
redistributivas de renda, com ênfase na atuação
do Estado, que passa a valorizar o planejamento em detrimento das forças
de mercados auto-reguladas (22).
Neste ponto os conceitos sobre desenvolvimento – como bem-estar
social e como progresso - se conciliaram a partir de uma coalizão
de interesses entre o Estado, sociedade e mercado
(23) .
No Brasil, do final da Segunda Guerra Mundial até os anos de
1970, o desenvolvimento ocorreu a partir de uma estrutura de produção
e distribuição que foi orientada principalmente para as
classes de renda mais alta. Os setores mais dinâmicos nesta época
eram a indústria automobilística e a indústria
de bens de consumo durável, típicos das classes alta e
média. Segundo Mota tratava-se de uma estrutura de produção,
distribuição e consumo altamente concentrada, em que uma
elite controlava e dominava os recursos disponíveis - terra,
crédito, renda - e a maioria da população continuava
sem receber os benefícios da expansão econômica
e do progresso técnico. Tal estrutura continua existindo e é
fonte de conflitos e críticas às teorias de desenvolvimento
existentes (24).
Os valores que sustentam a noção de desenvolvimento ainda
vigente dão exagerada ênfase ao crescimento (25)
econômico, o que implica na exploração descontrolada
de recursos naturais e consumo exagerado. Esses valores têm gerado
uma série de novos riscos, problemas ecológicos, degradação
ambiental, desintegração e desigualdade social, marginalização
de regiões e indivíduos, violência etc (26).
Para se delinear uma nova estratégia de desenvolvimento é
necessário ocorrer uma mudança na forma de pensar, perceber
e definir valores, ou ainda, conforme Morin
(27) , é preciso “repensar a reforma, reformar
o pensamento”. E, de fato, vive-se um processo de mudança
de visão do mundo na ciência e na sociedade, uma mudança
de paradigma tão radical como foi a revolução copernicana
(28).
É nesse novo paradigma que deverá ser analisada a energia
para o desenvolvimento sustentável. O uso e consumo da energia,
bem como o planejamento energético, deverão ser reavaliados
de forma a incorporar soluções sustentáveis.
Porém, essa compreensão ainda não atingiu sequer
a maioria das universidades, corporações, instituições
e menos ainda a sociedade, que deixam de reconhecer que os diferentes
problemas estão inter-relacionados, como também que as
possíveis soluções podem afetar as gerações
futuras. A partir do ponto de vista sistêmico, as soluções
viáveis são as soluções sustentáveis.
O conceito de sustentabilidade, nos termos do Relatório Bruntland,
é definido como aquele que “atende às necessidades
do presente sem comprometer a capacidade de as gerações
futuras também atenderem às suas” (29).
Neste contexto, para que a questão energética se torne
sustentável, é necessário que seus problemas sejam
abordados de forma ampla, incluindo não apenas a gestão,
o desenvolvimento e a adoção de inovações
tecnológicas, mas também promovendo mudanças quanto
ao comportamento da sociedade. De outra maneira, para que a mudança
possa atender à reconciliação entre economia e
meio ambiente é necessária uma mudança civilizacional
(30) e, como coloca
Sachs (31), a solução
requer uma passagem de uma “civilização do ter”
para uma “civilização do ser”.
(1) World Energy Assessment: Energy and the Challenge of Sustainability.
UNDP, UN, 2000.
(2) http://www.eia.doe.gov/emeu/iea/tablee1.html
(3) Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial 2000/2001. Banco
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(4) C.-J. Winter. Hydrogen and Solar Energy – ULTIMA Ratio Avoiding
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(10) World Energy Assessment. Energy and the challenge of sustainability.
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(14) Chambers. A. Distributed Generation: A Nontechnical Guide. Tulsa,
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(15) Idem
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(22) “O Estado a partir de políticas fiscais e monetárias,
cambiais, tecnológicas, científicas passa a ser um agente
no financiamento, alocação e realocação
de recursos públicos orientados para o desenvolvimento econômico”
(Idem, 2001: 31-32).
(23) Idem.
(24) BARBOSA, Sônia Regina da Cal Seixas. Desenvolvimento e ambiente:
questões fundamentais da sociologia contemporânea. Humanitas,
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(25) “Quanto a definição de crescimento não
há grandes controvérsias. Ele é caracterizado como
uma elevação persistente do produto nacional bruto real,
per capita, ao longo do tempo, traduzindo-se ainda, algumas vezes, como
um aumento no nível do consumo per capita” (CAVALCANTI,
1996: 20). CAVALCANTI, Rachel Negrão. A mineração
e o desenvolvimento sustentável: casos da Companhia Vale do Rio
Doce. São Paulo: Escola Politécnica, Universidade de São
Paulo, 1996, 432 p. Tese (Doutorado).
(26) BARBOSA, Sônia Regina da Cal Seixas. Desenvolvimento e ambiente:
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(29) HERCULANO, Selene Carvalho. Do desenvolvimento (in) suportável
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