Rumo a uma Teoria Evolucionária
do Sono e Sonhos

Sidarta Ribeiro
Dept. Neurobiology, Duke University Medical Center
Bryan Research Building, Room 337
101 Research Drive, Box 3209
Durham, NC 27710
Email: ribeiro@neuro.duke.edu

Resumo

Apesar da importância do sono e dos sonhos para a compreensão da consciência humana, a ciência ainda não chegou a um consenso sobre suas funções e suas intrincadas fenomenologias. Este documento esboça uma teoria evolucionária que é compatível com as diversas observações básicas relacionadas ao sono e sonhos. A teoria propõe que o sono de ondas lentas (SW slow wave sleep ) evoluiu do simples repouso dos primeiros répteis, como um estado de desligamento, prolongado e tranqüilo, capaz de promover a consolidação da memória dependente do cálcio. Este papel cognitivo é realizado pela reverberação de padrões de atividade neuronal da vigília durante o sono SW. O sono de movimentos rápidos dos olhos (REM rapid eye movement ), um segundo estado de desligamento caracterizado por uma elevada atividade cerebral e máxima desconexão sensorial, evoluiu dos primeiros pássaros e mamíferos como um mini-estado pós-sono SW, durando apenas uns poucos segundos. Apesar de sua curta duração, o sono REM é capaz de promover a consolidação da memória ao ativar os genes ligados à plasticidade sináptica. Em algum momento da evolução os mamíferos desenvolveram dilatados episódios individuais de REM, prolongando a reverberação neuronal não-estacionária que caracteriza o sono REM, mais para promover a reestruturação da memória do que para a estabilização da memória. Os sonhos como narrativas vívidas que se desdobram no tempo surgiram como um subproduto da reverberação neuronal durante o sono REM prolongado. Devido a tal reverberação não-estacionária, os sonhos são sequências hiper-associativas de memórias fragmentadas que simulam eventos passados e expectativas futuras, gerando possíveis soluções para os desafios cognitivos enfrentados pelo sonhador. Ainda que probabilísticas, as simulações oníricas podem às vezes produzir predições precisas de eventos futuros. Sob elevado metabolismo cerebral, é possível experimentar um estado de sono REM intensificado, no qual os eventos do sonho estão sob controle voluntário parcial ou total. O potencial cognitivo de tais sonhos lúcidos' permanece um território inexplorado pela ciência.




 



 

 


#3 2004
A Mente-Humana
Iván Izquierdo.
A Mente-Humana: Abordagem Neuro-psicológica.
Benito P. Damasceno.
The Cognitive MRI Revolution.
Anna Cristina Nobre et alii.
Towards an Evolutionary Theory of Sleep and Dreams.
Sidarta Ribeiro.
Epilepsia: Uma Janela para o Cérebro.
Alexandre Valotta da Silva e Esper Abrão Cavalheiro.
Brincando com a linguagem e criando sentidos, ou cognição distribuída e emergência da linguagem.
Edson Françoso; Maria Luiza Cunha Lima; Orlando Bisacchi Coelho.
Biting the apple: the challenge of Artificial Intelligence.
Yurij Castelfranchi.
Cartografando a Mente,
Leonardo Bonilha.

Números anteriores:
#2 - Arte e Ciência

#1 - O Futuro dos Recursos


Próximo número:


Quarto número:
Linguagem e ciência

o