Divulgação Científica e Senso Crítico:
Manual do Jornal Científico

Luciana Clark, André Sasse, Emma Chen Sasse & Otávio Clark*


resumo
A divulgação científica é parte fundamental do processo de conhecimento do mundo. Entretanto, a busca pela notícia estrondosa e os conflitos de interesse, aliados à incapacidade de escrever um texto atraente e fiel aos fatos, atrapalham sobremaneira a divulgação e a ciência em si. Um roteiro para averiguar a veracidade das informações obtidas é proposto.

PALAVRAS-CHAVE: divulgação científica, jornalismo científico, medicina baseada em evidência, ciência, linguagem.





Divulgação Científica e Senso Crítico:
Manual do Jornal Científico

Quando era criança não queria ser médica... queria ser jornalista. Ficava me imaginando de microfone em punho, em plena ação, no meio da notícia. A paixão pela palavra escrita, tenho que admitir, é mais antiga que pela medicina.

Trabalhando na área de oncologia é virtualmente impossível que se passe uma semana sem que eu seja abordada por um paciente ansioso com um: "Doutora, a senhora leu a reportagem que saiu na (pode colocar aqui QUALQUER fonte de informação impressa ou eletrônica) dizendo que tal e tal droga (ou chá, ou combinação de frutas, ou cogumelos...) cura o câncer?"

Nestes momentos eu geralmente respiro fundo, e inicio uma longa e exaustiva explicação, que excede em muito o tempo da consulta, mas é imprescindível para colocar a informação em perspectiva adequada para o paciente e sua família.

Acredito que o trabalho do jornalista hoje em dia é infinitamente mais difícil do que há 10 anos, apesar da (ou por causa da) enorme quantidade de informação disponível na Internet. Na área de saúde é ainda pior.

Qual jornalista não daria o braço esquerdo, ou mesmo o direito, pelo que seria o maior furo de reportagem de todos os tempos: a cura do câncer?

Infelizmente andamos a passos lentos, lentíssimos, nesta área. Pode parecer anacrônico, quando as novidades são tantas, que mal podemos dar conta delas. Mas esta é a realidade, quando se coloca em perspectiva que os ganhos reais de sobrevida com os novos tratamentos do câncer se traduzem em meses ou mesmo semanas.(1)

Novidades, raridades, aspectos inusitados, bizarros, diferentes, esperanças são elementos viscerais do jornalismo. Atrair a atenção do público para o fato relatado é a regra.

Já a ciência é rotina, são anos passados em laboratórios impessoais, são centenas de pacientes desconhecidos passando por estudos experimentais, pois nenhum outro tratamento conhecido funcionou.(2)

É um trabalho de anos que pode resultar em nada, e por isso, todo cuidado é necessário na divulgação dos mesmos.

Poucos são os felizardos a testemunhar no seu tempo de vida descobertas bombásticas como a relatada no New York Times(3) em novembro de 2004, sobre uma paciente que sobreviveu à raiva humana. Ali, em poucos parágrafos, caiu um paradigma da medicina, pois a raiva não é mais uma doença 100% letal.

Como então levar ao público leigo a verdade científica sendo claro, correto e sem afundar-se em números e estatísticas? Como transformar a rotina factual e cansativa da ciência em informação válida, útil e atraente, sem exagerar no aspecto jornalístico?

Carl Sagan, famoso cientista americano (que infelizmente é desconhecido das gerações mais novas), foi um dos exemplos mais brilhantes que conhecemos.(2) (4) (5) Sua produção literária eram relatos deliciosos sobre as estrelas, sobre a evolução humana e sobre a história da ciência. Era científico sem ser aborrecido e objetivo sem ser superficial. Foi um dos poucos iluminados a saber traduzir o "cientifiquês" para a linguagem comum, sem pender para o sensacionalismo.

Ainda nos lembramos de sua explicação, com base na teoria da evolução, do porquê os caranguejos de uma determinada região da Ásia terem em sua carapaça uma figura que parecia humana. Simples: os pescadores acreditavam que estes animais eram possuídos por um espírito humano e simplesmente os soltavam ao mar. Com o tempo, a população destes caranguejos predominou, por seleção natural e não por terem algum espírito humano em si.(5)

Como nem todos têm o talento de um Carl Sagan, cabe a cada jornalista decifrar o cientifiquês produzido pelo médico ou cientista.

Muita atenção: nada pior do que o ego médico para produzir conclusões que na maioria das vezes estão baseadas em "achismo" e são tão densas quanto o ar rarefeito.(6)

Opiniões sobre qualquer assunto na área médica, se forem baseados em revisões discursivas, podem fornecer informações erradas e desatualizadas.(6) (7)

Revisão discursiva é aquela que o autor escreve, baseado em artigos que ele próprio selecionou e que invariavelmente tendem a concordar com a visão que ele tem sobre aquela droga ou aquele tratamento.(7) (8) Suspeito? Sim, porém mais comum do que se pensa.

Quando um jornalista colhe opiniões sobre qualquer doença ou tratamento, ele deve questionar: "Qual é o nível de evidência desta informação que o especialista está me passando?"(9)

A surpresa é que boa parte dos médicos entrevistados vai responder: "Nível do quê?".

Será que os médicos não sabem o que estão fazendo? Bem, não chega a ser um furo de reportagem, mas um furo de formação médica. Cito um exemplo, tão assustador quanto real, para ilustrar o que foi dito: uma pesquisa, realizada em 1992 com grandes cardiologistas americanos, demonstrou que mais da metade deles desconhecia o que na época era o melhor tratamento para o infarto agudo do miocárdio (no caso a estreptoquinase), a despeito desta informação estar cientificamente estabelecida (e publicada) há mais de 15 anos.(6)

Ainda pior: a maior parte dos famosos cardiologistas recomendava o uso de um medicamento (a lidocaína) que era a rotina nos serviços, mas que estudos da época mostravam ser ineficaz e mesmo deletério, quando usado rotineiramente.(6) E ainda não acabou: nos livros de cardiologia da época, o tratamento recomendado era o antigo (deletério) e na grande maioria nem constava a citação do tratamento mais efetivo.(6) Esta discrepância acontece por vários motivos. É virtualmente impossível o médico manter-se completamente atualizado: o volume de informação publicada é espantoso, e só parte dele realmente aproveitável.(10) Os médicos tendem a aprender pela repetição. O acadêmico aprende com o residente, que aprende com o preceptor, que quando era jovem aprendeu com o professor (que na época era residente). Além disto, tendemos a ser acomodados. Mesmo quando procuramos atualização, em geral o estudo é dirigido, ou seja, lemos as mesmas fontes de informação, as mesmas revistas científicas, os mesmos livros. E estes nunca estão atualizados.

Nos últimos anos surgiu o que parece ser uma luz no fim do túnel, a Medicina Baseada em Evidências.(9) Essa ferramenta de análise da informação científica separa o real do imaginário, estudos válidos dos vazios e coloca o ego do médico no seu devido lugar.

Outra questão importantíssima é o conflito de interesses. Freqüentemente há uma supervalorização de achados de pesquisas se um interesse financeiro está envolvido. Por exemplo: estudos patrocinados por empresas têm duas vezes mais chance de dar resultados favorecendo seu produto que quando este mesmo estudo é patrocinado por entidades independentes.(11)

Procure mais informações sobre estes assuntos no site www.evidencias.com.br e previna-se contra os donos da verdade.

Para terminar, aqui vão algumas dicas que deveriam constar do Manual de Sobrevivência do Jornalista Científico:
1) Peça sempre ao entrevistado a referência do estudo original que está embasando aquela opinião ou parecer. Você vai se surpreender com a resposta, ou a falta desta em algumas situações!
2) De preferência, peça para que ele classifique esta informação conforme seu nível de evidência. Se o entrevistado não souber o que é isto, imprima uma tabela (clique aqui ) diretamente do site www.evidencias.com.br e entregue a ele. Afinal a sua obrigação é esclarecer, não é?
3) Verifique, independentemente, com outra pessoa da mesma área a confiabilidade do estudo citado, como fonte e se o nível de evidência a ele atribuído está correto.
4) Peça ao entrevistado uma declaração de conflitos de interesse. A influência da indústria pode fazer alguns colegas apresentarem resultados enviesados.
5) Finalmente, quando escrever o artigo procure ser fiel à verdade. Deixe que os fatos científicos sejam a luz que ajuda o paciente a ter conhecimento sobre sua doença e sobre as opções de tratamento. O sensacionalismo da chamada e da matéria, por mais tentadores que sejam, esvaziam-se como balão e causam, na maioria das vezes frustrações, desânimo e muitas, muitas lágrimas. Pode acreditar, essa notícia é antiga. Já vimos várias vezes.

REFERÊNCIAS

(1) Bailar J. C., 3rd, Gornik HL. Cancer undefeated. N. Engl. J. Med. 1997;336(22):1569-74.
(2) Sagan C. O mundo assombrado pelos demônios. São Paulo: Cia das Letras; 1996.
(3) Rosenthal E. Girl Is First to Survive Rabies Without a Shot. New York Times 2004 25 Nov.
(4) Sagan C. Contato. São Paulo: Cia das Letras; 1997.
(5) Sagan C. Cosmos. Baltimore: Ballantine Books; 1986.
(6) Antman EM, Lau J, Kupelnick B, Mosteller F, Chalmers TC. A comparison of results of meta-analyses of randomized control trials and recommendations of clinical experts. Treatments for myocardial infarction. JAMA 1992;268(2):240-8.
(7) Mulrow CD. Rationale for systematic reviews. BMJ 1994;309(6954):597-9.
(8) Chalmers I. Unbiased, relevant, and reliable assessments in health care. BMJ 1998;317(7167):1167-1168.
(9) Guyatt G, Rennie D. User's Guide to the Medical Literature – A Manual for Evidence-Based Clinical Practice. 1st ed. Chicago-IL: AMA press; 2002.
(10) Chalmers I, Altman DG. How can medical journals help prevent poor medical research? Some opportunities presented by electronic publishing. Lancet 1999;353(9151):490-3.
(11) Lexchin J., Bero L. A., Djulbegovic B., Clark O. Pharmaceutical industry sponsorship and research outcome and quality: systematic review. BMJ 2003;326(7400):1167-70.

NOTAS

* Núcleo Brasileiro de Saúde Baseada em Evidências, www.evidencias.com.br. Correspondências para: Dra. Luciana Clark; evidencias@evidencias.com.br. Av. Prof Atílio Martini, 834, sala 14B; Campinas (SP), CEP: 13083-830. Fone: (19) 3289 4513.





maio 2005


 


#4 2005
La Diversité des Langues et L'Universalité de la Pensée
Sylvain Auroux.
Scientific discourse and interpretation
Eni Orlandi.
A Física em Três Tempos de Poesia
Carlos Vogt.
A Retórica e a Ciência Dos Artigos Originais à Divulgação Científica.
Luisa Massarani e
Ildeu de Castro Moreira.
Divulgação Científica e Senso Crítico: Manual do Jornal Científico
Luciana Clark, André Sasse, Emma Chen Sasse e Otávio Clark.
Simulação Numérica
Philippe R. B. Devloo.
Signos da Vida: A Linguagem e os Significados do ADN.
José Geraldo W. Marques.
Campinas Metropolitana: Diversidades Sócio-Espaciais.
José Marcos Pinto da Cunha, Rinaldo Barcia Fonseca, Alberto Eichman Jakob e Roberto Luiz do Carmo.

Números anteriores:

#3 - A Mente Humana


#2 - Arte e Ciência

#1 - O Futuro dos Recursos


Próximo número:


Quinto número:
Tecnologia para a Saúde