Os Recursos
do Futuro: Um outro discurso
Eni Puccinelli Orlandi enip@uol.com.br
Laboratório de Estudos Urbanos (Labeurb)/NUDECRI
Introdução
Gostaria de iniciar fazendo um jogo com as palavras. Invertendo as que
constituem o tema deste número da revista, proponho: Os recursos
do futuro. Por que invertemos? Pelos efeitos de sentidos que são
diferentes nessas duas formas de enunciar, como procuraremos mostrar.
Nessas duas formas, aparentemente próximas, distintos compromissos
teórico-político-sociais e ideológicos se confrontam.
Assim como se desenham distintas formas de pensar o sujeito social e
a história.
Prognósticos, preferências, expectativas – presentes
em primeira linha no enunciado “O futuro dos recursos” -
não ajudam a refletir porque não se baseiam numa compreensão
maior do estado de fato do que produzimos hoje, já que toma uma
direção excessivamente pragmática. Por isso, como
é de meu domínio específico, vou tratar do tema,
pela linguagem, começando por desestabilizar o dito, tal como
ele vem se pondo, de modo fixado, estereotipado, como se fosse uma evidência
em seus sentidos cristalizados, funcionando como algo que se sustenta
como idéia comum.
Por essas reflexões veremos que o tema, tal como está
enunciado, é feito de um equívoco (M. Pêcheux, 1982)
que procurarei trazer à tona: supõe que podemos decidir
sobre o futuro dos recursos. E mais: como se, os que decidimos, estivéssemos
em lugar privilegiado dessa história, tendo domínio sobre
ela.
Por outro lado, e inspirada na ministra Marina Silva, do meio ambiente,
vou trazer mais um enunciado constituído de uma proposta de uma
inversão, esta explícita, feita pela ministra: “Temos
que inverter a cultura que usa toda força para punir os pequenos
e é impotente diante dos poderosos”. Com algumas diferenças,
que exponho em seguida, vou guardar também essa forma de inversão,
dita pela Ministra, para organizar esta reflexão.
Na maneira como compreendo os discursos da conjuntura capitalista, falar
em pequenos e poderosos é já sucumbir ao discurso que
tem mantido a situação tal qual e, por outro lado, falar
em “cultura”(aqui cultura está no lugar de ideologia
e por isso, ao não dizê-la, não a pensa) é
tirar a contundência do processo que leva a isso. Na perspectiva
em que analiso esta questão, quanto ao enunciado da Ministra,
eu deslocaria uma palavra, re-significando outra. E isto sem sair do
regime capitalista de significação que é o que
rege a fala da Ministra. Como sabemos, na ordem capitalista as questões
são de Direito. Usando então o mecanismo da paráfrase,
próprio à análise de discurso, podemos dizer com
este deslocamento, parafraseando a Ministra: “Temos que inverter
o processo judiciário que usa todo rigor para punir os pequenos
e compactua com os poderosos”. Onde “pequenos” também
pode ser substituído por “pobres, pequenos empresários,
sujeitos sociais sem recursos, enquanto “poderosos” pode
ser substituído por “ricos, grandes proprietários
ou empresários, os que têm recursos”. Como podemos
ver, um enunciado pode ter muitas versões, e nelas, os sentidos
não são os mesmos. Fica aqui apontado já um outro
lugar para se pensar “recursos”. Passemos agora ao que estamos
propondo.
Assim, na proposta do outro enunciado (os recursos do futuro, título
de meu texto), para partir do que temos, volto-me para o que se dá
com os recursos que são os nossos. Isto porque, como disse, na
outra formulação – o futuro dos recursos –
pressupõem-se que temos estes recursos e nos debruçamos
sobre a vontade de mantê-los, expandi-los ou sobre a ameaça
de perdê-los. Já na formulação que proponho
– os recursos do futuro – admitimos o não-sabido,
o não existente e o que poderá vir a existir. Não
somos onipotentes, nem podemos pensar que nossas vontades determinem
o futuro. Mas podemos refletir sobre o que temos e deixar aberta a porta
do que se pode passar entre o irrealizado e o possível. Isto
talvez nos resguarde dos discursos catastróficos (natureza) ou
do discurso comportamental (moral). E da nossa estrita racionalidade.
Precisamos lidar com o que não sabemos e, no caso, com o que,
do social, certamente produzirá seus efeitos, apesar de nossas
vontades.
Volto-me para o que, em minhas pesquisas sobre ambiente (R. Trajber
e L.H. Manzochi,1996), tenho encontrado na ordem do discurso que fala
sobre recursos.
No caso, trata-se do discurso político, de sua constituição,
formulação e circulação, produzindo seus
efeitos. E o discurso político pode ser definido, justamente,
como o discurso que, afetado pelo poder, diz das relações
de forças e de sentidos que relacionam sujeitos sociais na história
em função do seu poder fazer nas condições
de suas existências em sua estabilidade e movimento.
Finalmente, é preciso localizar que esse discurso – o dos
recursos – arregimenta a ciência e o trabalho social da
imprensa. Trata-se aí do discurso midiático, de uma forma
de divulgação científica. Temos então três
componentes: o político (e o simbólico), o científico
(e o pedagógico) e o midiático.
Os sentidos que se cruzam no discurso dos recursos/ambiente.
Retomo brevemente aqui algumas conclusões a que cheguei em estudo
anterior sobre o discurso pedagógico e midiático sobre
o ambiente.
Incialmente, o fato de que é um discurso fortemente arregimentado
pelo processo significativo do discurso empresarial, que acaba projetando
um público alvo que precisa saber certas coisas enquanto consumidores.
Saber este fortemente atado à idéia de “informação”.
Não são pois sujeitos simbólicos (que significam
e se significam em suas histórias e formações sociais)
aí enunciados mas sobretudo “usuários”, bem
ou mal “informados”. Alia-se a esta característica
o fato de que é um discurso de fortes características
político-administrativas, embora se sustente em argumentos que
procuram autorizar-se a partir de sua cientificidade (ciência
econômica, física, biológica, ambientalista e muitas
outras). Este discurso explora assim menos os processos e relações
e mais as conseqüências e resultados. Em geral, traz ainda
uma carga enorme de preâmbulos que dispõe seu consumidor
ao efeito de uma grande quantidade de “informações”
presumivelmente necessárias. Desliza facilmente para preconceitos
(que pretende eliminar), muitas vezes para a nostalgia de um mundo idealizado
e afeta o óbvio – próprio do sistema capitalista
- de uma grande importância e necessidade. O jogo mais forte se
dá entretanto na articulação entre as dimensões
conceptual, tecnológica e administrativa. Se, de um lado, o imediatista,
afeta o sujeito na direção do comportamento, de outro,
pende resolutamente para o investimento da “racionalidade”
empresarial, administrativa.
A meu ver, no entanto, um discurso mais produtivo, quanto a este tema,
o dos recursos, seria aquele que admitisse a irracionalidade, a relação
da sociedade com a história (nem sempre previsível) e
com o político (tenso de dissenções), assim como
com o imaginário que rege as relações com o real
e com o simbólico (o que faz sentido). Ao invés de apresentarem-se,
então, como reflexões, são antes discursos de “campanhas”
(mobilização e militância a partir de uma posição,
nem sempre visível, mas já sempre tomada e pre-fixada),
ou de prestação de contas de/a órgãos governamentais
ou projetos econômicos mal sustentados nas necessidades sociais
historicizadas.
Estes textos falam mais com outras organizações do que
com interlocutores sociais diferenciados. Tudo isso, segundo o que penso,
vem comprometido pelo fato de que não se atenta aí à
contradição (observe-se que não estou dizendo oposição)
entre o natural e o social.
Em resumo, trata-se, na maior parte das vezes, de um discurso em que
o locutor principal é a Empresa e o objeto é a Terra (com
T maiúsculo, mundo) num sentido que eu chamaria de planetário
(E. Orlandi, 2001), disperso, não sujeito às vicissitudes
das relações sociais concretas e com o trabalho. Nada
demais quanto a isso. Se não parasse aí. O que falta é
que esse discurso se signifique pensando a relação entre
o governo, a administração, a ciência e o público.
Estabelecer-se-ia então uma conversa real entre a experiência
e o conhecimento, situados na dimensão histórica e social
em que, enquanto sujeitos, produzimos nossa existência. A terra
não seria apenas a Terra (planetária) mas terra (solo
em que vivemos) e o mundo teria suas determinações reais
concretas (não só sujeita a cálculos, mas a movimento,
desorganização, transformações). A sociedade,
quando aparece, aparece do lado do mal: ou é atacada, ou apagada,
ou negada. O pressuposto é de que nada se pode fazer pelo social
– embora se tente – mas nem por isso se deva ficar omisso
em relação a uma pretensa “consciência”,
racionalizada pelo discurso da economia e da política burocrática.
Isso, a meu ver, mostra na realidade que falta inscrever-se decisivamente
em valores sociais e posições políticas explícitas
e significadas. Por isso esses discursos desembocam na maior parte das
vezes em um fechamento. A abertura estaria em se tematizar a questão
estrutural sócio-política como parte de um processo político
e não como uma excrecência dele. Nesse sentido, insisto
sobre o fato de que a questão é estrutural, sócio-histórica.
E portanto deve incluir a reflexão sobre seres sociais históricos
e simbólicos (significantes do mundo e de sua própria
vida). Os recursos são, antes de tudo, recursos humanos. Vale
ressaltar que não se trata aqui do sentido reduzido pelo uso
desta expressão tal como ficou caracterizado pelo discurso administrativo,
na sigla RH. Estamos pensando os recursos humanos enquanto seres sócio-históricos,
sujeitos simbólicos que se significam e significam o mundo em
que vivem.
Em seguida, creio que o aspecto mais importante a ser trazido para a
reflexão é que esses discursos sobre o futuro dos recursos
(e não como proponho os recursos do futuro) evitam a questão
da necessidade das rupturas. São em geral reformistas. Esvaziam
assim o social como estruturante e ficam em seus efeitos, falando ou
do muito geral e abstrato – os cálculos economicistas –
ou do que só tem micro alcance – desliza para o indivíduo.
Novamente aqui chamo a atenção para o silenciamento (Orlandi,
1992), nesse discurso, de um sujeito não só usuário
mas histórico, social e politicamente significado, produtor de
sua existência.
Dessa maneira – há um sentido privilegiado para a noção
de recursos? – passando ao largo da espessura semântica
do que sejam os recursos, eles adiam a experiência ou caem no
ativismo, no imediatismo.
Para sair dessa formação de dizeres, como disse antes,
penso que se deva re-introduzir nessas discussões a irracionalidade,
o imaginário, o político, necessariamente presentes no
que diz e no que faz o homem; em outras palavras, o sujeito sócio-histórico
constituído pelas relações de poder e afetado pela
ideologia. Seria para mim uma maneira de atravessar os efeitos que esse
discurso produz, saindo assim de sua própria armadilha.
A Ciência, a Tecnologia, a Administração.
Há, quando falamos dos recursos, um dizer já dito e significado
que sustenta nosso próprio dizer. E isto é o que constitui
a ideologia na análise de discurso. Quando interpretamos, interpretamos
com sentidos já postos, evidentes, e nem sabemos como eles se
formaram em nós. Estão lá. Disponíveis.
Fazem parte de nossa memória, nosso “saber” discursivo.
Desde que ouvimos algo, esses sentidos estão lá prontos
para “significarem”. Com efeito, é por esse modo
de funcionamento ideológico da linguagem que passamos sem refletir
sobre o fato de que há um recobrimento entre a ciência,
a tecnologia e a administração (governo) (M. Pêcheux,
1984). De tal forma que quando falamos científicamente (dos recursos)
isto também já faz um sentido tecnologicamente e serve
à administração das relações entre
os sujeitos da nossa sociedade. É isso que queremos dizer quando
afirmamos que há em todo dizer uma relação intrínseca
entre o simbólico e o político.
Pois bem, nesse assunto de que estamos tratando e, envolvidos pela importante
maneira como a mídia aí faz circular esses discursos,
aponta sem dúvida a importância das novas tecnologias de
linguagem na produção dos efeitos de sentidos produzidos
quando falamos em futuro dos recursos/recursos do futuro.
As novas tecnologias de linguagem representam uma possibilidade de reorganização
do trabalho intelectual e do trabalho da interpretação.
E elas são, como muitos outros, recursos do futuro. Assim, sem
supervalorizá-las mas sabendo que elas contam, podemos desenvolvê-las
na direção de sustentar uma abertura para o que possam
a vir significar...no futuro. No seu modo de funcionamento podem inaugurar-se
novas relações entre a ciência e a administração
(E. Orlandi, 2003). Não estacionamos assim na informação
e na quantidade, mas na qualificação de nossas tecnologias
em função do que podemos definir como novas formas de
ciência. Assim procedendo podemos estabelecer uma outra equação:
o futuro é a ciência/ o futuro é a sociedade em
que o que interessa é menos o que são em si ciência
e sociedade mas a natureza desse vínculo. Trata-se de se repensar
a própria noção de ciência, pega na interrelação
com a tecnologia e a administração tendo a linguagem como
sustentação. Nesse caso então elabora-se a própria
noção de ciência e de organização
do trabalho intelectual (novas tecnologias de linguagem) em seu alcance
(onde incluo certamente as formas de se praticar o jornalismo científico,
na distribuição do trabalho da ciência na sua presença
na sociedade).
Há, nessa perspectiva em que estamos refletindo, então,
um recobrimento dessas três instâncias de maneira que é
impossível não se transitar de uma para outra e não
necessariamente nessa mesma ordem: ciência, tecnologia, administração.
Se assim é, e se pensamos rigorosamente as inversões que
enunciamos acima, recoloca-se, para a questão dos “recursos”,
tratá-la em uma perspectiva das ciências humanas, não
separando conhecimento/experiência, teoria/prática. E os
equívocos que têm sido praticados vêm justamente
dessa dificuldade: a de pensar os “recursos” do ponto de
vista das ciências humanas – reintroduzindo a materialidade
histórica, a ideologia e os sujeitos sociais - e sem separar
estritamente as instâncias (ciência, tecnologia, administração)
em que a mesma palavra “recurso” produz diferentes efeitos
de sentidos. Basta pensar o que é recurso em ciência, em
tecnologia, em administração.
São os sujeitos sociais os atores dessa história. Politicamente
significados e capazes de significarem-se em suas histórias nos
confrontos entre o político e o simbólico. Portanto, é
preciso não esquecer, quando falamos em recursos e em seu futuro,
que esses sujeitos, que são antes de tudo sujeitos de linguagem,
são os recursos principais sem os quais não há
sociedade, não há história, não há
futuro. E é portanto trabalhando na contradição
entre o natural e o social – em que a ciência, a tecnologia
e a administração jogam seu intrincado jogo – que
enfrentaremos esta questão real, elaborando seus equívocos.
Assim é que a linguagem deixa de ser mera informação
ou comunicação para adquirir em sua materialidade o estatuto
de “instrumento” (P. Henry, 1993) de conhecimento, onde
teoria e prática não fazem senão um. Se os recursos
são então este sujeito, ou seja, o homem tomado simbólica
e históricamente, e ideologicamente significado, com suas possibilidades,
por seu lado, é o político que dá a dimensão
do futuro.
Bibliografia
P. Henry (1993) “Os fundamentos teóricos da análise
de discurso de Michel Pêcheux”, in Por uma análise
automática do discurso, F. Gadet e T. Hak (orgs), Ed. Unicamp,
Campinas.
E.P. Orlandi (1992) As Formas do Silêncio , Editora da Unicamp,
Campinas.
E. P. Orlandi (2001) Discurso e Texto, Pontes eds, Campinas.
E.P. Orlandi (org. )(2003) Para uma enciclopédia da cidade, Pontes
eds., Campinas.
M. Pêcheux (1982) “Lire l´archive aujourd´hui”
, trad. Brasileira (1996), in Gestos de leitura, Ed. Unicamp, Campinas.
M. Pêcheux (1984) “Discours: Structure ou Evénnement?”,
trad. Brasileira, Pontes eds., Campinas, 1990.
R. Trajber e L.H. Manzochi (orgs) Avaliando a educação
ambiental no Brasil: materiais impressos , Gaia editora, São
Paulo, 1996.
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