O primeiro volume da Revista MultiCiência, com o tema O Futuro dos Recursos, inclui cinco artigos que abordam aspectos sobre os limites e o futuro da biodiversidade, dos recursos hídricos, dos recursos energéticos e sobre as discursividades que sustentam estes dizeres.

Os cinco artigos, em seu conjunto, cumprem uma das principais propostas da Revista, qual seja, fazer conhecer e colocar em debate as diversas formas de se refletir uma questão interdisciplinar, “o futuro dos recursos”, propiciando um debate acadêmico, por intermédio dos artigos presentes neste volume.

Os dois primeiros artigos versam sobre a biodiversidade. O primeiro, “Causes of Biodiversity Loss: a Human Ecological Analysis”, de L. Hens & E. K. Boon, apresenta definições de biodiversidade, levando em conta a Convenção sobre Diversidade Biológica e os diversos conceitos que lhe giram entorno como os de diversidade de espécies, diversidade genética e diversidade dos ecossistemas. Apresenta, também, aquilo que em sua área vem sendo considerado enquanto causas da perda da biodiversidade, cujo elemento comum que as une é a atividade humana, pensada do ponto de vista social, cultural, econômico e ético. Nesta análise, informações sobre mudanças demográficas, consumo e pobreza são apresentadas e avaliadas em função das políticas públicas em diversos níveis, apontando-lhes suas limitações, como a incapacidade em incorporar valores ambientais, as dificuldades em impor políticas monetárias, dentre outras. A revisão de Hens & Boon é ampla e profunda o suficiente de modo a apontar tanto as visões neoclássicas, quanto as da economia política, mostrando as contribuições de ambas abordagens. O segundo, “Natural Resources, Biodiversity, Integrated Management and Regulation: general considerations and discussion”, de M. G. Paoletti e D, Pimentel, é um estudo que analisa tanto o conhecimento sobre, quanto o uso da biodiversidade. O conhecimento ainda insuficiente sobre a biodiversidade é apontado como um dos limites para compreender os recursos ambientais e manejá-los de modo a evitar a sua perda. Vários exemplos de sub-utilização da biodiversidade são apresentados, seja na agricultura, seja no consumo, seja nos inventários de espécies. Neste caso, é ilustrativa a citação referente a coletas no século XIX, oriunda de crônicas de Alfred Russel Wallace, e a pergunta que relaciona a capacidade de inventariar a natureza e a coloração das espécies. Tal revisão é enriquecida com diversos exemplos da Ásia e da América, apontando como uma de suas conclusões a necessidade de estimular ações que venham a reduzir o declínio dos recursos naturais, incluindo programas educacionais e a proteção de culturas locais.

“Recursos Hídricos” é o terceiro artigo deste volume. Nele, J. G. Tundisi, leva em conta dados mundiais e brasileiros, proporcionando uma riqueza de dados, seja com relação ao balanço hídrico, ao consumo de água, ou com relação à previsões. Os impactos produzidos pelas atividades humanas nos ecossistemas são avaliados em detalhe, trazendo à cena as construções de represas e diques, a drenagem, o desmatamento, a poluição, a chuva ácida e a presença de metais pesados, a remoção de biomassa, a introdução de espécies exóticas, as mudanças climáticas e o crescimento populacional e do consumo. A disponibilidade dos recursos hídricos, seja em relação à sua quantidade, seja quanto à sua distribuição, é avaliada em função da produção de alimentos, de problemas urbanos e de saúde. O artigo apresenta com consistência a necessidade de que a gestão, seja setorial, local e de resposta às crises dos recursos hídricos, deva se constituir em uma gestão integrada, em nível de ecossistema, possibilitando assim a antecipação e previsão.

O quarto artigo, “Recursos Energéticos, Meio Ambiente e Desenvolvimento”, de E. P. Silva, J. C. Camargo, A.Sordi e A.M.R. Santos, apresenta informações e dados que permitem compreender o passado, o presente, e ainda os prognósticos para o futuro sobre a humanidade, quanto à produção e ao uso da energia. Encontramos informações sobre a evolução do dióxido de carbono na atmosfera, sobre emissão de poluentes aéreos, dentre outros, no que diz respeito ao impacto do uso das fontes não renováveis de energia, com ênfase na emissão de partículas na atmosfera. De acordo com os autores, até a era industrial predominou a fase sólida (madeira e carvão), tendo o petróleo inaugurado a fase líquida e delineia-se no horizonte a fase gasosa (hidrogênio). O artigo ainda apresenta em detalhe as perspectivas sobre novas fontes de energia, ou novas tecnologias de geração de energia, levando em conta o protocolo de Kyoto e os impactos da produção de energia.
Finalmente, fechamos o presente número com o artigo “Os Recursos do Futuro: Um outro discurso”, de E. P. Orlandi, no qual a autora trata dos diversos dizeres sobre o futuro e os limites dos recursos, seja na ciência, seja nas políticas públicas, seja na rede midiática. A autora procura desestabilizar os sentidos cristalizados que se encontram presentes no enunciado ‘O futuro dos recursos’. Começa por inverter tal formulação, que lhe dá o título de seu artigo, enunciando ‘Os recursos do futuro’, de modo a colocar sob evidência, na relação já estabilizada com as palavras com que os homens se habituam a falar, os sentidos cristalizados construídos por uma memória sócio-histórica que fixa uma relação transparente entre a palavra e sua referência, sustentando um efeito de evidência do que se diz ao enunciarmos ‘O futuro dos recursos’. Dentre os diversos espaços discursivos em que este enunciado se apresenta, a autora identifica o homem colocado como algoz da premente falta de recursos e não enquanto parte constitutiva destes recursos que devem ser cuidados, construídos, ou mesmo preservados.

Nestes diferentes modos de se refletir sobre o tema proposto pelo presente volume, o futuro dos recursos, vemos uma preocupação com a extinção, de forma ampla, com as políticas públicas em termos de lidar com os recursos, com sua disponibilidade e distribuição; a proposição de uma necessidade de educar, de promover mudanças éticas, de promover mudanças nos padrões de consumo, bem como de maior integração e previsão em análises sobre os recursos; e, finalmente, de se refletir sobre como nos significamos ao dizermos sobre futuro, recursos e limites.

Contamos ainda com 3 revisões de livros, de temas variados, já que é também uma proposta da Revista trazer para o espaço das Resenhas todas as áreas de conhecimento, sem vínculo direto com o tema do número. São apresentadas, neste volume, as revisões de o Relatório Lugano, de S. George, publicado na França em 1999 e lançado no Fórum Social de Porto Alegre em 2002, que trata dos efeitos excludentes da globalização; The evolution of communication de M. D. Hauser, publicado em 2000, que trata da comunicação no reino animal a partir de uma abordagem da psicologia evolutiva; e de Modernidade e identidade de A. Giddens, lançado em 2002, que trata da constituição das sociedades modernas na relação com a globalização, imprimindo especificidade aos aspectos singulares da existência de cada um.

Com isso fechamos a apresentação deste primeiro volume, esperando contar com a leitura de um amplo público acadêmico e com a participação de todos nos espaços abertos pela Revista.

Comissão Editorial da MultiCiência


Causes of Biodiversity Loss: a Human Ecological Analysis.
L. Hens & E. K. Boon.
Natural Resources, Biodiversity, Integrated Management and Regulation: General Considerations and Discussion.
M. G. Paoletti & D. Pimentel.
Recursos Hídricos.
J. G. Tundisi.
Recursos Energéticos, Meio Ambiente e Desenvolvimento.
E. P. da Silva, J. C. Camargo, A. Sordi & A.M.R. Santos.
Os Recursos do Futuro: Um Outro Discurso.
E. P. Orlandi.

O Relatório Lugano, George, S. (2002), Ed. Boitempo, São Paulo.
Patarra, N.
The Evolution of Communication, Hauser, M. D. (2000), The MIT Press, Cambridge, MA.
Begossi, A.

Modernidade e Identidade, Giddens, A. (2002). Jorge Zahar Ed., Rio de Janeiro.
Barbosa, S. R. da Cal S.