A Autoria Vista sob Suporte Tecnológico.
Pedro de Souza.
Integração Multimédia em Meios e Ambientes Aumentados.
Nuno Correia e Teresa Chambel.
Khorwa.
Mikhail Malt.
NonSequitur: Colagem Sonoro-visual para um Encontro entre Lógica e Música.
Walter Carnielli, Raul do Valle, Adolfo Maia Jr e Jônatas Manzolli.

Excavating Jesus: Beneath the Stones, Behind the Texts, John Dominic Crossan e Jonathan L. Reed.
Funari, Pedro Paulo A.

Gênero e comunidades pesqueiras: Na Unidade Familiar, em Direção à Sustentabilidade.
Alpina Begossi.

Arte & Ciência:
Água e Pedra Construindo a Textura da Complexidade
Jônatas Manzolli

A atividade interdisciplinar é multi-facetada por definição, pois congrega, nas diversas dimensões do conhecimento, a variedade inerente ao desenvolvimento das idéias - natureza complexa e viva. Cada vez mais, ao contemplarmos como domínios, espaços e tendências têm se ampliado com uma força extraordinária, podemos indagar: Como este processo transformador se forma? Como nasce?

Assim como a água ao ser congelada gera uma grande energia de expansão, o conhecimento humano, muitas vezes, num processo de congelamento por estruturas hierárquicas, expande-se e cria novas modalidades. A água ao se solidificar, rompe com o vasilhame que a contém, com força tal que o deforma e, muitas vezes, o faz explodir. Este processo pode gerar estilhaços, fragmentos que dependem basicamente da interação entre a força de expansão da água e o material que a contém. Se o mesmo for elástico e permeável, surgirão novas configurações plásticas e novas geometrias. O que, no processo do conhecimento humano, nos leva à construção dinâmica de uma arquitetura do saber que não é, necessariamente, funcional. Muitas vezes, manifesta-se como uma escultura, uma esfinge a nos indagar sobre a nossa própria natureza. Como quando Leonardo da Vinci criou o sorriso enigmático da Monalisa. Por outro lado, se o material for rígido impedindo o avanço da água, certamente, haverá uma explosão que fragmentará domínios, levando-os a re-configurações. Como quando Copérnico estabeleceu uma nova ordem planetária.

A interação entre o conhecimento humano e os seus domínios tem esta natureza. Na medida em que se tenta congelá-lo, ele se expande. Na medida em que se tenta confiná-lo, ele cria deformações elásticas no meio ou, até mesmo explosões das barreiras que tentam comprimi-lo.

A proximar Arte e Ciência tem uma dinâmica transformadora e é de natureza tal que a criatividade, força de expansão inerente às diversas manifestações culturais, artísticas e científicas, age no sentido de conciliar e moldar o complexo reticulado do conhecimento humano. Neste encontro há plasticidade e adaptação, o que leva a situações como os " memes " descritos por Dawkins (1) que aponta para uma forma de " Darwinismo Universal " no qual o surgimento de idéias intelectuais e artísticas é fruto do refinamento de conceitos competindo entre si. Quando, no processo de evolução cultural, a criatividade individual se apropria de meios tecnológicos que podem transformar a natureza de uma obra a partir de uma cópia, a diversidade do meio coloca em cheque a autoria e o indivíduo confronta-se com a sua representação digital. Um sintoma de que há um enfraquecimento do Sujeito Criativo? Quem é o autor de obras mediadas por processos tecnológicos? Cópia, fragmentação, transformação, alteração, reprodução, ganham novos sentidos tornam-se mecanismos de manifestação criativa? O professor Pedro de Souza, do Centro de Comunicação e Expressão da Universidade Federal de Santa Catarina - Brasil, discute "A Autoria Vista sob Suporte Tecnológico". Além disso, aponta que a demanda pelo respeito à autoria tem como fundamento a priori duas representações sobre as quais repousam princípios inquestionáveis de sua existência: a primeira diz respeito ao empenho próprio e à inspiração na criação de obras de originalidade inalienável; a segunda diz respeito ao estatuto jurídico que define o autor como o responsável por um ato de qualquer natureza. O seu pressuposto é de que o conceito de autoria enquadra juridicamente "tanto o que cria, quanto o que forja como sua uma obra, mediante cópia ou difusão não autorizada ". Na diversidade do ciberespaço, na distribuição transformada, transliterada, transmutada, nasceria, então, outro Sujeito Criativo? Nesta avalanche de informações, os rumores indagam que mais do que o conteúdo falado importa saber quem fala por trás dos enunciados escriturados no espaço virtual.

Depois de um estudo da música de Gana na África, o compositor Steve Reich (2) ao escrever sobre Música como Processo Gradual, descreve o desenvolvimento musical como observar, sentir e ouvir as ondas envolverem lentamente seus pés na areia da praia . Projetada de forma estética, a música-processo de Reich incorpora pequenas modificações graduais num substrato rítmico para evoluir sua trajetória. Assim, as múltiplas variações que cada músico gera em um padrão sonoro, contribuem para a sonoridade final da obra - o complexo sonoro é a soma das interações entre cada participante da performance. Uma forma de vislumbrar um processo similar a este, é olhar para o produto contemporâneo que a integração multimídia proporciona ao entrelaçar a utilização intensiva de vídeo e a reutilização dos conteúdos existentes. A contribuição de cada um dos usuários leva à expansão e à criação de novos contextos. O professor Nuno Correia, do Departamento de Informática da Universidade Nova de Lisboa, e a professora Teresa Chambel, do Departamento de Informática da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa - Portugal, apresentam "Integração Multimídia em Meios e Ambientes Aumentados nos Contextos Educativos e Culturais" onde discorrem sobre as novas tendências derivadas da utilização intensiva de dispositivos multimídia. Trazem uma visão panorâmica das tecnologias que vinculam os vetores atuais e apontam para uma colaboração mais intensa e eficaz entre instituições nacionais e internacionais. Trata-se de um cenário emergente onde novos conceitos se descortinam. Descrevem espaços hipermídia que utilizam vídeo em um cenário multifuncional e em realidade aumentada. O artigo pauta pelo esclarecimento das possibilidades abertas por estas novas tecnologias nos campos artísticos, culturais e educativos.

A partir da última década, conceitos derivados da Evolução Biológica têm sido usados como paradigma para criação artística. Um dos primeiros empregos em projetos de produção artística foi o trabalho de Latham (3) nos seus sistemas Mutator e Form Grow utilizados para criar formas tridimensionais no computador. Ele enfatizou que estes métodos deram a ele liberdade para explorar e criar formas complexas que estavam além de sua imaginação. Esta busca por novos meios de expressão levou também a construção de sistemas interativos de composição musical. Da mesma forma, em  "Khorwa" o compositor Mikhail Malt, do Institut de Recherche et Coordination Acoustique/Musique (IRCAM), Centre Pompidou , Paris - França, utiliza uma palavra Tibetana que tem vários significados como girar em volta, girar em círculo, o mundo, a existência cíclica, o círculo das transmigrações nas seis classes de seres, para nomear seu sistema de composição evolutiva. No seu artigo, descreve uma proposta criativa definida como uma instalação sonora em tempo real. Sua obra é regida pela dinâmica da interação de agentes denominados como " seres musicais " convivendo em um modelo de vida artificial. Diversos aspectos da dinâmica do processo são descritos e há exemplos sonoros que enriquecem a interação do leitor com a poética da obra. Khorwa contém ciclos de vida, como nascimento, período de reprodução e morte que geram uma música que não tem nem começo nem fim - um contínuo fluxo sonoro.

No seu livro "O Encontro Marcado" (4), possivelmente autobiográfico, Fernando Sabino coloca uma citação onde descreve a trajetória humana como um encontro com o outro. Nesta epígrafe comenta que a sabedoria inicia-se quando percebemos que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que ganhamos ou pretendemos ganhar o mundo . Vai além ao mencionar que neste momento a solidão nos atravessa como um dardo. Em "NonSequitur: Colagem Sonoro-visual para um Encontro entre Lógica e Música", acha-se inscrito também um enigma de mesma natureza: o encontro do homem com a razão e a sua inevitável perplexidade. O lógico Walter Carnielli, do Centro de Lógica, Epistemologia e Historia da Ciência (CLE), Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), o compositor Raul do Valle, do Núcleo Interdisciplinar de Comunicação Sonora (NICS) e do Departamento de Música (DM/IA), o matemático Adolfo Maia Jr., do Núcleo Interdisciplinar de Comunicação Sonora (NICS) e do Departamento de Matemática Aplicada (DMA/IMECC), e o compositor Jônatas Manzolli do Núcleo Interdisciplinar de Comunicação Sonora (NICS) e Departamento de Música (DM/IA), levam a cabo esta busca em uma obra envolvendo lógica, música e vídeo. "NonSequitur", descrita como uma colagem sonoro-visual, apresenta a transitoriedade das verdades lógicas, discute a impossibilidade da incoerência absoluta, à medida que " permanece sempre alguma racionalidade, mesmo na mais extenuante tentativa de se produzir o absurdo ". O artigo aqui apresentado contém a obra no formato de vídeo digital de maneira que o leitor poderá acessar uma versão de "NonSequitur" no formato MPEG4. O texto versa sobre a visão estética dos autores que se apóiam no pressuposto de que as contradições, as utopias e os absurdos, muitas vezes, desempenham um papel revelador na evolução do conhecimento humano.

Ao buscar uma reflexão sobre a Arte e a Ciência para o volume II da Revista MultiCiência, descortinou-se um amplo leque de articulações, uma forma incontida de possíveis relações. Como editor, inicialmente, levei a este grupo seleto de autores algumas inquietações e eles, assim como a água, trouxeram-me uma torrente de conceitos e idéias. Ao olhar para os quatro trabalhos aqui apresentados, pude detectar um fluxo que contempla identidade, autoria, ciberespaço, Internet, multimídia, evolução, computação evolutiva, vida artificial, lógica, música, oxímoros, paradoxismos, incoerência e absurdo. Não que esta seja a seqüência ideal ou uma linha causal que explique a organização das idéias apresentadas pelos autores, todavia, ao ver tal diversidade, enriqueci-me ao tocar a textura desta complexidade, o entrelaçamento de tantos conceitos, tão diversos e ricos.

Debrun (5), ao comentar a contemporaneidade, menciona que novos desenvolvimentos na lógica, na teoria da informação, na cibernética, na física, na química, na biologia molecular e celular e na ciência cognitiva levaram a um refluxo no questionamento científico e filosófico sobre as noções de ordem e desordem, levando até a superação de oposições teóricas clássicas. Prigogine (6) comenta que o legado, que circunscreve a democracia e as ciências modernas à mesma herança histórica, levaria a uma contradição se as ciências fizessem triunfar uma visão determinista da natureza. Ele aponta para o surgimento de uma ciência que não se contenta mais com situações simplificadas e idealizadas, mas que coloque diante de si a complexidade do mundo real: " uma ciência que permita que se viva a criatividade humana como a expressão singular de um traço fundamental e comum a todos os níveis de natureza".

Talvez aí, na hipótese de se conceber a criatividade em todos os níveis de natureza, esteja o elo de interação que une a água, o conhecimento e a pedra. Une as Artes às Ciências. Fica latente a capacidade de absorção de energia da água e o poder sustentador da pedra. A água recondiciona o meio e, muitas vezes, o faz explodir e a pedra tem criatividade para re-configurar-se, re-alinhar-se e re-projetar-se.

Notas:

(1) Richard Dawkins, R. "The Blind Watchmaker", Penguin Books, 1986.

(2) Reich, S. "Writings about Music". New York: Universal Editions, 1974.

(3) Latham, W. & Todd, S., "Evolutionary Art and Computers", Academic Press, 1992.

(4) Sabino, F. "O Encontro Marcado", São Paulo Editora Record, 1956, pg. 5.

(5) Debrun, M. "A idéia de Auto-organização". In: Auto-organização, estudos interdisciplinares, Coleção CLE, ed. Debrun M., M.E. Gonzales, O. Pessoa Jr. - Unicamp, pg 3-22.

(6) Prigogine, I. "O fim das certezas". Editora Unesp: São Paulo, trad. R. Leal Ferreira, ISBN 85-7139-131-9.

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Comissão Editorial da MultiCiência
Campinas, 27 de maio de 2004


Arte e Ciência
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