Editorial

O Estudo da Mente Humana: Modelo de MultiCiência
Roberto J. M. Covolan
IFGW-UNICAMP

Cérebro e mente dão o que pensar. Embora não exista experiência mais imediata que a sensação de sermos nós mesmos, integrada ao conjunto de percepções que resultam da nossa interação com o mundo exterior, a conexão cérebro-mente, que nos propicia tais coisas, permanece a realidade mais elusiva e misteriosa de que temos conhecimento. A questão fundamental aqui é: como é que os processos fisiológicos que ocorrem no nosso cérebro, presumivelmente passíveis de descrição em termos biofísicos, bioquímicos e/ou neurobiológicos, proporcionam as experiências subjetivas que denominamos mentais?

De uma forma ou de outra, esta questão vem sendo considerada há séculos. Contudo, aprendemos da história que muito do sucesso da ciência moderna deveu-se (e deve-se) a algo que alguém já chamou “humildade metodológica”. Ao invés de tentar explicar Deus e o Universo, temas centrais da especulação escolástica, Galileu Galilei (que, pessoalmente, era muito pouco humilde ele mesmo) revolucionou as formas de se conhecer o mundo ao tentar encontrar leis matemáticas que governariam os movimentos mais simples, como a queda livre dos corpos, buscando no mundo real comprovação experimental para as suas conjecturas teóricas.

De maneira análoga procedem a maioria dos modernos estudos sobre a mente humana. Não que este não seja um terreno fértil para a especulação e a teorização, mas o enorme avanço ocorrido nos últimos anos na área de neurociências e o impacto produzido em campos específicos de estudos psíquicos, como a psicologia cognitiva por exemplo (1), dão mostras eloqüentes de que descobertas no campo das ciências naturais têm muito a contribuir para a elucidação de questões relativas à mente humana.

Embora filósofos da mente, como David Chalmers, considerem que o problema da consciência (ou, mais especificamente, o que ele chama de hard problem , i.e., o problema de como os processos físicos do cérebro dão origem à experiência subjetiva) não será resolvido apenas pelas neurociências (2), muitos (inclusive ele próprio) esperam que descobertas fundamentais nessa área possam abrir caminho para um novo tipo de teoria que consiga dar conta de fenômenos mentais.

Por outro lado, certamente não se espera que o estudo da mente humana se restrinja às ciências da natureza. Dificilmente alguém apostaria na existência de leis naturais determinantes de valores morais, éticos ou estéticos, por exemplo. Na verdade, é em articulações multidisciplinares, freqüentemente focadas em neurociências, que residem hoje as principais expectativas (e esperanças) de avanço real no conhecimento da mente humana. O estudo da mente humana constitui, portanto, um modelo exemplar de MultiCiência. Isto poderá ser apreciado de maneira clara neste número da revista.

No artigo de abertura, o professor Iván Izquierdo , renomado neurocientista e diretor da Academia Brasileira de Ciências, atualmente no Centro de Memória do Instituto de Pesquisas Biomédicas da PUC-RS – Porto Alegre, oferece-nos, na forma de um relato muito pessoal, um instigante painel sobre A Mente Humana , em particular sobre aspectos relativos à memória. Para ele, “ A mente é hoje até fácil de se descrever em seus aspectos mais gerais; mas a função mental em cada circunstância específica de nossas vidas continua sendo um mistério muitas vezes imprevisível.

Semelhantemente a William James, para quem a mente não é uma entidade, e sim, um processo, o neurologista Benito Damasceno , da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp - Campinas , afirma em A Mente Humana: Abordagem Neuropsicológica que “A mente humana não é uma “faculdade” isolada ou apriorística, mas uma “atividade” complexa, caracterizada por sua estrutura sistêmica, natureza mediada e origem histórico-social.” A partir desse enfoque, ele nos apresenta uma visão da atividade mental enquanto estrutura sistêmica e enquanto representação e mediação, além de discutir sua origem social-interacional a partir de achados na psicologia, neuropsicologia, neurociência cognitiva e psicolingüística discursiva.

Mencionou-se acima a necessidade de descobertas fundamentais para preencher a “lacuna explicativa” (Joseph Levine) que impede de se vislumbrar o nexo entre cérebro e mente. Contudo, a obtenção de resultados novos e fundamentais requer técnicas sofisticadas e instrumentação avançada. Em The Cognitive MRI Revolution, Anna Nobre e colaboradores, do Departamento de Psicologia Experimental da Universidade de Oxford – Inglaterra, apresentam um excelente overview sobre ressonância magnética funcional, uma técnica que vem revolucionando o estudo da dinâmica cerebral. O artigo discute desde os fundamentos dessa técnica até aplicações avançadas através de sistemas multi-modais. Ao final, depois de uma bem-servida lista de referências, o leitor encontrará sugestões para leitura e indicações de webpages extremamente interessantes.

Encarados com admiração e fascínio desde a Antiguidade, os sonhos foram considerados em muitas culturas como meio de se predizer o futuro em função de seus supostos poderes oraculares e premonotórios. Em Towards an Evolutionary Theory of Sleep and Dreams, Sidarta Ribeiro , neurocientista do Duke University Medical Center, Duke – EUA, apresenta-nos uma t eoria extremamente interessante pela qual os sonhos poderiam, de fato, desempenhar um papel importante nas escolhas que fazemos e decisões que tomamos no dia-a-dia.

Muito do conhecimento que temos sobre a mente humana deve-se a estudos realizados em pacientes portadores de patologias. Epilepsia é uma das condições neurológicas mais freqüentes, afetando um grande número de pessoas. Em Epilepsia: Uma Janela para o Cérebro, Alexandre Valotta da Silva e Esper Abrão Cavalheiro, do Laboratório de Neurologia Experimental da Universidade Federal de São Paulo , apresentam-nos como o estudo da epilepsia tem contribuído para se chegar a novas descobertas a respeito das funções cerebrais .

Muitos pesquisadores acreditam que o surgimento de funções cognitivas superiores em seres humanos está intimamente ligado ao aparecimento da linguagem. Nossas habilidades lingüísticas teriam possibilitado o desenvolvimento de capacidade para o raciocínio abstrato e a expressão de sentimentos e emoções, constituindo-se no elemento diferencial determinante para que nos tornássemos distintos dos outros animais. Em Brincando com a Linguagem e Criando Sentidos, ou Cognição Distribuída e Emergência da Linguagem, Edson Françozo (Instituto de Estudos da Linguagem, UNICAMP), Maria Luiza Cunha Lima (Universidade do Vale do Rio Verde, UNINCOR) e Orlando Bisacchi Coelho (Universidade de Mogi das Cruzes, UMC), apresentam um instigante artigo em que a origem da linguagem é investigada através de simulações computacionais e experimentos realizados com robôs.

Aprofudando a questão da robótica, em Biting the Apple: The Challenge of Artificial Intelligence, Yurij Castelfranchi, pesquisador da School of Science Communication – International School for Advanced Studies (SISSA), Trieste-Italia e do Laboratório de Jornalismo, NUDECRI-Unicamp, apresenta-nos, a partir de uma perspectiva histórica, uma visão atual a respeito da possibilidade de se construir máquinas pensantes.

Concluindo os artigos voltados para o tema central deste número de MultiCiência, Leonardo Bonilha, pós-doutorando em neurociência cognitiva da University of Nottingham, Inglaterra, apresenta-nos em Cartografando a mente uma resenha sobre o livro Mapping the Mind , de Rita Carter, sublinhando a importância dos modernos métodos para se obter neuroimagens funcionais do cérebro.

É bem conhecida a frase “If the only tool you have is a hammer, you tend to treat everything as if it were a nail” . O conjunto de trabalhos aqui reunidos, elaborados por pesquisadores especialistas em suas respectivas áreas de atuação, certamente proporcionará ao leitor uma boa idéia do variado instrumental teórico e experimental empregado atualmente para o estudo da mente humana.

Notas:

(1) Ver p. ex. Neurological Foundations of Cognitive Neuroscience – Issues in Clinical and Cognitive Neuropsychology , ed. Mark D'Esposito (MIT Press, Boston, 2002).

(2) David J. Chalmers, in The Conscious Mind – In search of a Fundamental Theory (Oxford University Press, New York, 1996), pp. 233-42.

 

 

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Comissão Editorial da MultiCiência
Campinas, 27 de outubro de 2004


A Mente Humana - Editorial:
O Estudo da Mente Humana:
Modelo de MultiCiência

Roberto Covolan.
A Mente-Humana
Iván Izquierdo.
A Mente-Humana: Abordagem Neuropsicológica.
Benito P. Damasceno.
The Cognitive MRI Revolution.
Anna Cristina Nobre et alii.
Towards an Evolutionary Theory of Sleep and Dreams.
Sidarta Ribeiro.
Epilepsia: Uma Janela para o Cérebro.
Alexandre Valotta da Silva e Esper Abrão Cavalheiro.
Brincando com a Linguagem e Criando Sentidos, ou Cognição Distribuída e Emergência da Linguagem.
Edson Françoso; Maria Luiza Cunha Lima; Orlando Bisacchi Coelho.
Biting the Apple: The Challenge of Artificial Intelligence.
Yurij Castelfranchi.

Resenha
Cartografando a Mente,
Leonardo Bonilha.

Rede Interdisciplinar
Código e Criação.
Freire, Emmerson; Ferreira, Pedro P.; Diaz-Isenrath, Cecília
Auto-Organização e Criação.
Ítala Loffredo D´Ottaviano; Ettore Bresciani Filho

#03
outubro 2004