Editorial

A Linguagem da Ciência
Claudia Castellanos Pfeiffer
Labeurb/Nudecri/Unicamp

O quarto número da revista Multiciência foi proposto sob o eixo temático "A Linguagem da Ciência". Reflexão complexa, já que não há ciência fora da linguagem, que envolve no mínimo três facetas: as diferentes linguagens que configuram as diversas práticas científicas; a natureza dessas linguagens; e, a linguagem como possibilidade de fazer a ciência circular, fazer-se conhecer por um público não-especialista. Os artigos que ora compõem o núcleo temático da revista tocam, cada um a seu modo, nessa densa relação entre a ciência e a linguagem. Conseqüente à proposta de Multiciência , as reflexões são interdisciplinares. Não porque cada artigo fosse escrito por um "representante" de uma grande área, mas porque a questão colocada à reflexão é interdisciplinar e exige uma abordagem que atravessa a disciplinarização do conhecimento.

P. R. B. Devloo, em "Simulação numérica", trata de uma linguagem específica da ciência, baseada na teoria dos modelos, a simulação numérica. Mostra que a história desse conceito perpassa todo o pensamento ocidental de modo permanente e que sua importância é atualíssima para o conhecimento científico, sobretudo para a competição industrial, sustentada por uma abordagem interdisciplinar da mecânica computacional.

I. Moreira e L. Massarani propõem, em "A retórica e a ciência – dos artigos originais à divulgação científica", uma reflexão sobre as diferentes estratégias retóricas entre a linguagem que transmite a informação científica a seus pares e aquela própria à divulgação científica. Quais são as diferentes estratégias de apresentar, ilustrar e argumentar que se estabelecem, que analogias são acrescentadas ou descartadas, quais os limites e os obstáculos a essa empreitada, são algumas das análises apresentadas, que não desconhecem o fato de que essas linguagens são também históricas e, portanto, variam conforme seu tempo.

L. Clark, A. Sasse, E. Chen e O. Clark, em seu "Divulgação científica e senso crítico: manual do jornalista científico", propõem um roteiro de averiguação de informações para jornalistas interessados em trabalhar com notícias científicas de modo a evitar a produção de notícias sensacionalistas e equivocadas. Médicos oncologistas, os autores trabalham com uma ferramenta – tabela de evidências – que permite o desenvolvimento do que eles designam de uma medicina baseada em evidências. Com isso os autores disponibilizam uma linguagem que subsidia o jornalismo para que no percurso da ciência para sua divulgação sejam garantidas a fidelidade e a qualidade das informações.

C. Vogt, em seu "A física em três tempos de poesia", apresenta-nos o próprio do fazer científico: seu movimento na história. Sob uma inesperada e bem-humorada linguagem poética, mostra-nos o percurso da ciência através de figuras emblemáticas como Newton, Plank e Einstein, trabalhados literariamente e intertextualmente por Pope, Aaron Hill, Sir John Squire e pelo próprio autor, poeta, além de lingüista.

E. Orlandi, em seu "Scientific discourse and interpretation" reflete como a escrita pensada teoricamente pode configurar nela mesma uma prática científica, permitindo uma abordagem da interpretação como uma questão científica específica. Nesse sentido, apresenta a escrita da Análise de Discurso como uma possibilidade metodológica de aliar descrição e interpretação na compreensão dos fatos de linguagem.

S. Auroux, em "La diversité des langues et l'universalité de la pensée", pensando a relação entre a história da ciência e a história da filosofia da linguagem, mostra-nos como a demanda pelo Um-universal atrela uma ciência universal ao desejo por uma língua universal. Percorrendo autores clássicos como Locke, Quine, Sapir-Whorf, Beauzée e Dumarsais, reflete sobre a diversidade das línguas e seu contraponto na busca por uma língua universal capaz de refletir um pensamento universal, próprio a uma demanda científica que é histórica.

Excepcionalmente, nesse número quarto de Multiciência suas seções "Rede Interdisciplinar" e "Resenhas" encontram-se articuladas ao núcleo temático da revista. Na "Rede Interdisciplinar" apresentam-se dois artigos. Em "Ser rede: vida pessoal e participação política nas redes ecofeministas", R. C. Di Ciommo analisa a especificidade de movimentos ecofeministas que se estruturam em rede: há aí uma estruturalidade contemporânea possibilitada pela presença de uma rede eletrônica que permite uma organização política diferente da tradicional. Por seu lado, M. Clauzet, M. Ramires e W. Barella, em "Pesca artesanal e conhecimento local de duas populações caiçaras (Enseada do Mar Virado e Barra do Una) no litoral de São Paulo, Brasil", colocam a linguagem em foco, tomada pela perspectiva da etnobiologia, mostrando que, através do discurso do pescador artesanal, intervém-se no conhecimento acumulado sobre classificação, história natural, comportamento, biologia, etc.

Finalmente, a seção "Resenhas" apresenta-nos duas obras que contribuem para a reflexão da relação entre a linguagem e a ciência. A resenha de J. G. W. Marques de Signos da vida: a linguagem e os significados do ADN , de Robert Pollack, relata um trabalho realizado na biologia que envolve a lingüística, a história, a hermenêutica e a literatura, propondo que a ciência é desempenhada principalmente por metáforas que, ao mesmo tempo, lhe fomentam e lhe projetam. Campinas metropolitana: diversidades sócio-espaciais , resenhada pelos próprios autores, J. M. P. da Cunha, R. B. Fonseca, A. E. Jakob e R. L. do Carmo, mostra-nos – já que a ciência não se faz fora da linguagem – uma proposta inovadora de interpretação e análise de dados estatísticos: a espacialização de dados sócio-demográficos por mapeamento através de interpolação espacial. Assim, a linguagem específica do mapeamento permite um conhecimento espaço-demográfico da configuração da mancha urbana metropolitana da região de Campinas.

 

 

 

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Comissão Editorial da MultiCiência
Campinas, 25 de maio de 2005


#04
maio 2005
A Linguagem da Ciência - Editorial
Claudia Castellanos Pfeiffer.
La Diversité des Langues et L'Universalité de la Pensée.
Sylvain Auroux.
Scientific discourse and interpretation.
Eni Orlandi.
A Física em Três Tempos de Poesia.
Carlos Vogt.
A Retórica e a Ciência Dos Artigos Originais à Divulgação Científica.
Luisa Massarani e
Ildeu de Castro Moreira.
Divulgação Científica e Senso Crítico: Manual do Jornal Científico.
Luciana Clark, André Sasse, Emma Chen Sasse e Otávio Clark.
Simulação Numérica.
Philippe R. B. Devloo.

Resenhas
Signos da Vida: A Linguagem e os Significados do ADN.
José Geraldo W. Marques.
Campinas Metropolitana: Diversidades Sócio-Espaciais.
José Marcos Pinto da Cunha, Rinaldo Barcia Fonseca, Alberto Eichman Jakob e Roberto Luiz do Carmo

Rede Interdisciplinar
Pesca Artesanal e Conhecimento Local de Duas Populações Caiçaras no Litoral de São Paulo, Brasil.
Clauzet, M., Ramires, M. e Barrella, W.
Ser Rede: Vida Pessoal e Participação Política nas Redes Ecofeministas.
Regina C. Di Ciommo