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O Futuro dos Recursos
Prof. Iran Machado

Boa tarde a todos. Vou apresentar a temática do futuro dos recursos, centrando a exposição nos minerais, e a minha exposição irá abranger 5 itens.
O primeiro deles é a evolução geológica do planeta. O segundo, o tempo geológico; o terceiro, a disponibilidade dos minerais energéticos e não-energéticos; o quarto, as perspectivas de escassez; e finalmente, no quinto e último item, vou me deter um pouco nas questões éticas ligadas ao futuro dos recursos.
Eu decidi abordar a questão do futuro, primeiro voltando ao passado. O nosso planeta tem uma idade de 4,5 bilhões de anos. Este número para o cidadão comum ou mesmo para um leigo (não-cientista) significa uma cifra fantástica e até difícil de entender o significado. Se nós usamos no nosso dia-a-dia um calendário com 365 dias, o que significa 4,5 bilhões de anos? Mas é exatamente esta a idade do planeta em que vivemos; e tínhamos no início, uma configuração do meio físico completamente diferente da situação atual. Na época mais antiga, o período Pré-cambriano, tivemos a formação generalizada de jazidas de minério de ferro, que tiveram um papel importantíssimo para construir a nossa civilização atual. É impossível alguém pensar a respeito do estágio atual do ser humano, não fosse o emprego do ferro e do aço na nossa civilização. Então, deve-se ter a consciência de que vivemos num planeta extremamente antigo e, para haver uma percepção do que significa o tempo geológico, ou seja, a evolução de 4,5 bilhões anos até os dias atuais, façamos uma comparação. Se nós reduzíssemos esta duração de 4,5 bilhões de anos a um ano apenas, o ser humano teria aparecido tardiamente no dia 31 de dezembro. Isto, por si só, torna latente a necessidade de refletir sobre a existência do recurso mineral, considerando que alguns se formaram nos períodos mais antigos, o Pré-cambriano, com mais de 600 milhões de anos, e a partir daí tivemos o aparecimento da vida, os primeiros organismos, e numa evolução permanente e contínua chegamos finalmente ao ser humano, que é o que mais nos interessa em termos sociais. Então, temos que considerar o que é que difere o recurso mineral, o recurso não-renovável, daqueles recursos renováveis, principalmente quando consideramos a fauna e a flora. Discutimos aqui precisamente a questão de que os processos geológicos são caracterizados por uma lentidão muito grande (com exceção de fenômenos catastróficos, como vulcanismo e terremotos). Desse modo, para se formar uma jazida de minério de ferro, uma jazida de cobre, de ouro, de prata, de chumbo, zinco, de fertilizantes, é preciso um espaço de tempo extremamente longo (centenas de milhares de anos ou mais), e que não há nenhuma relação com a duração de fenômenos a que estamos habituados dentro das nossas gerações. Assim, esta dimensão temporal é extremamente importante quando consideramos o uso desses recursos pela sociedade. O seu uso terá que ser muito criterioso para que não esgotemos alguns recursos que serão extremamente úteis para gerações futuras. Então, o conceito de sustentabilidade, como tal, já estava implícito nas primeiras considerações feitas nas décadas de 30 e 40 do século passado, a respeito da conservação de recursos minerais, imaginando-se que eles pudessem ser utilizados no futuro. Com relação aos bens minerais de modo geral, existe uma divisão em duas grandes categorias: os recursos minerais energéticos e os não-energéticos, que constituem uma gama bastante variada de produtos metálicos, não-metálicos, gemas, etc. O que se conhece nos dias de hoje a respeito da disponibilidade desses recursos não leva a nenhuma preocupação maior na área de não-energéticos com relação à escassez e ao esgotamento. Em parte, isso é devido a vários fatores, um deles a reciclagem. No caso dos metais, para um grande número, senão a totalidade dos metais, a sociedade vem empreendendo um esforço notável para reciclar aquilo que era descartado nas décadas anteriores. Temos hoje em dia reciclagem de aço, de alumínio, cobre, chumbo, zinco, realizada de modo cada vez mais eficiente. Atualmente o espectro da escassez não existe para o grupo dos metais.
Outro fator relevante a assinalar é que as descobertas de novas jazidas aconteceram numa velocidade bem maior do que o uso desses metais pela sociedade. Temos aqui uma lista de vários metais (vide tabela) que no intervalo de 1950 até os dias atuais, ou seja, no espaço de aproximadamente 50 anos, cujas jazidas foram multiplicadas assustadoramente: minério de alumínio foram multiplicadas por um fator de 25 vezes, de cobre 6,5 vezes, de ouro 2,5 vezes, de ferro 16 vezes, de chumbo 3,25, de níquel 10 vezes, de fosfato 14,2 vezes, de prata 2,6 vezes, de estanho 2 vezes, de zinco 6 vezes, de carvão 16 vezes, de petróleo 13 vezes e de gás natural 32 vezes. Nos dias atuais, todos os teóricos que se têm debruçado sobre o tema de escassez de recursos minerais não chegaram a nenhum dado alarmante com relação à escassez (com exceção do petróleo). Entretanto existem questões socio-econômicas que irei abordar no final desta exibição.
tabela
Se focalizarmos o item petróleo, por exemplo, de fato há uma grande preocupação com relação à sua oferta, visto que a sociedade moderna depende em quase todos os campos deste produto e de seus derivados para transporte em geral, calefação no Hemisfério Norte, indústria petroquímica e uso industrial diversificado. Esta dependência é maior para o petróleo em si do que para o gás natural, um recurso cujo aproveitamento se deu mais tardiamente.
Então, por que o petróleo se torna uma matéria-prima tão importante, gerando conflitos internacionais, disputas geopolíticas, guerras sem muita justificativa (para nós, cidadãos de outras nações) e tantos outros males para a humanidade? A questão fundamental é que os Estados Unidos sozinhos consomem 25% do petróleo produzido no mundo, ou seja, uma única nação com aproximadamente 5% da população mundial, consome 25% desse petróleo.
Quais as conseqüências desta equação para todos nós? Sendo uma potência econômica de grande envergadura, a maior potência do planeta, também do ponto de vista militar, há uma imposição feita por essa nação de prolongar o bem-estar da sociedade americana através da manutenção do nível atual de consumo do petróleo. Isto é feito através do petróleo importado já que, conforme vou mostrar em figuras a seguir, as reservas americanas vêm caindo radicalmente de sua posição confortável em décadas anteriores e isso leva o país a procurar desesperadamente ampliar reservas às custas do subsolo de outras nações.
O que eu gostaria de colocar para encerrar esta parte e entrar nas figuras que vou exibir, é que nós temos uma situação de recursos minerais finitos, não só o petróleo como outros bens minerais, e que isso está intimamente ligado à capacidade de consumo de cada nação. Em outras palavras, se por um passe de mágica os países mais pobres consumissem algo não exatamente igual ao consumo de um cidadão americano, mas de um cidadão do sul da Europa, que tem um consumo mais modesto em relação ao cidadão do norte da Europa, mesmo assim iríamos enfrentar uma situação de mudança do paradigma em termos de consumo de recursos não-renováveis.
Isto implicaria em mudar drasticamente o estilo de vida daquelas nações mais ricas, que têm um consumo muito maior de qualquer matéria-prima. Ou seja, a manutenção do status quo leva a uma situação de maior tranqüilidade para os países mais ricos e, ao mesmo tempo, que manipula ou coloca em uma posição de extrema inferioridade, aquelas nações que estão procurando galgar um nível mais alto de consumo. Enfim, ter melhor qualidade de vida para sair de uma situação de pobreza ou penúria que, no século em que vivemos, o século 21, é considerada uma situação eticamente inaceitável.
Em seguida, vou ilustrar a exposição com algumas figuras. Aqui nós temos de maneira bastante esquemática como os bens minerais são considerados dentro de um circuito fechado. Temos à esquerda o processo de formação de jazidas que deriva do meio ambiente, logicamente, um modelo genético de formação dessas jazidas. Estas, sofrem processo de erosão e entram na fase de aproveitamento que está aqui definido como “lavra, processamento e refino” no caso dos metais. Então, após este processo o material é utilizado pelos consumidores - indústrias ou consumidores individuais. Temos aqui a construção de um modelo baseado na informação sobre esses minerais, análise e fluxo desses materiais. Após o uso, temos então a disposição dos rejeitos e, na melhor das hipóteses, existe a reciclagem desse material para sofrer novamente processamento e refino. Uma outra parte desse material vem, então, degradar o meio ambiente, conforme está indicado aqui. Em qualquer nação que se considere, onde houver desenvolvimento industrial teremos esse tipo de circuito.
Aqui nós temos uma ilustração mais voltada para o lado econômico, mais uma vez como é que ocorre a geração de produtos de origem mineral e, ainda, como se insere a tecnologia dentro do setor, com o desenvolvimento de sucedâneos (materiais substitutos), reciclagem, advindo daí a redução das perdas. Aqui temos explicitada a demanda que, quando cresce, vai refletir sobre a tecnologia que tem que melhorar e também a questão do custo da extração, que também será reduzido através de inovações tecnológicas.
Eu compartilho de uma preocupação muito grande com relação ao futuro dos recursos e seguindo uma linha semelhante àquela que foi exposta pelo colega Joly, cito o exemplo de pensadores que estão extremamente preocupados com a evolução do quadro energético do mundo. Um deles (Richard Duncan, diretor do Institute on Energy and Man) ilustrou isso através desta figura (Teoria Olduvai) mostrando que a partir de 3 milhões de anos a.C., a civilização passou por um longo período pré-industrial; por volta de 1930 o consumo mundial de energia per capita atingiu 37% do valor máximo (somente alcançado em 1978) e o mundo experimentou um crescimento industrial extremamente rápido no pós-guerra. Neste último período de muita afluência tivemos o uso pacífico e não-pacífico da energia nuclear e o surgimento da Astronáutica (um dos ícones do progresso tecnológico). Entretanto, se este modelo de desenvolvimento continuar sendo praticado no mundo, segundo as previsões daquele autor e de outros forecasters, em torno de 2025, o ser humano ingressaria no período pós-industrial, que guarda uma grande semelhança com o período pré-industrial, conforme mostra a figura. Nós teríamos um ser humano ainda relativamente sofisticado em termos de mentalidade e conhecimento, porém bastante saudosista com relação ao período áureo (período contemporâneo) que a humanidade experimentou, mas cuja capacidade de consumo esgotou completamente aqueles recursos naturais disponíveis. Em termos energéticos, haveria um colapso (mais ou menos em 2025) do qual a humanidade não poderia escapar. (Não esqueçamos que a produção industrial de bens exige insumos energéticos). Evidentemente, este é um cenário que eu espero que não se concretize, e devido à pressão do tempo, neste ponto encerro a exposição. Outras figuras são anexadas para ilustrar melhor esta exposição.
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