Excavating Jesus: Beneath the
stones, behind the texts
John Dominic Crossan e Jonathan L. Reed, Excavating Jesus: Beneath the stones, behind the texts. New York, HarperCollins, 2002, 298pp., ISBN 0-06-061634-2.
Resenhado por Pedro Paulo A. Funari (1)
(1) Coordenador-Associado do Núcleo de Estudos Estratégicos (NEE/UNICAMP), professor do IFCH/UNICAMP.
O filme de Mel Gibson, A Paixão do Cristo , lançado, em todo mundo, na Quaresma de 2004, tem gerado imensa controvérsia, tanto na imprensa, como nos meios acadêmicos. Gibson realizou um filme fora do âmbito de Hollywood, com fundos próprios, em projeto bem afinado com o fundamentalismo cristão, visando a produção de uma obra de cinema que se confundisse com um documentário.
Para melhor vender a obra para este público fundamentalista, chegou-se a difundir para imprensa o boato que o Papa João Paulo II teria dito para ninguém menos do que o Cardeal Ratzinger, chefe do Santo Ofício, herdeiro direto da Inquisição, que o filme retrataria ‘aquilo que realmente aconteceu', dito em em paráfrase à famosa frase do alemão, Leopold von Ranke.. A frase foi desmentida pelo Vaticano, mas Gibson conseguiu que seu filme fosse vendido como um retrato fiel, wie es eingentlich gewesen .
Neste contexto, a leitura da obra do arqueólogo Reed, produzida em parceria com o biblista Crossan, não poderia ser mais atual e recomendada, até como antídoto para o fundamentalismo do filme norte-americano.
Os autores apresentam os vestígios materiais e os textos antigos como construções que precisam ser estudadas em seu processo de formação. Os textos do Novo Testamento são todos muito posteriores àquilo que narram e formam uma narrativa de caráter religioso e escatológico, pouco preocupados em descrever o que ‘realmente aconteceu'. Os vestígios arqueológicos, por sua vez, constituem camadas de milênios a serem também desconstruídas, interpretadas.
Os autores mostram como o Jesus que emerge desta análise é muito diverso daquele da tradição cristã. Nascido em aldeia pequena, no meio de camponeses analfabetos, Jesus tampouco se diferenciava dos seus compatriotas do campo. Falava apenas o aramaico e dificilmente saberia ler. Passou toda a vida em meio à vida simples das aldeias, em pregação que refletia os interesses e concepções dessa gente simples, os pobres que figuram com lugar de destaque no que viria a ser chamado de Sermão da Montanha[2]. Jesus inseria-se em longa tradição camponesa de oposição às elites judaicas, ricas, influenciadas pelos costumes estrangeiros e que dominavam o Templo de Jerusalém.
E então, o que podemos saber sobre as últimas doze horas, retratadas com tanto sangue no filme de Gibson?
Muito pouco do que nos relatam os Evangelhos é histórico e os vestígios arqueológicos diretos tampouco são significativos. Contudo, muito se pode esclarecer pelo contexto da época[3]. Não sabemos se houve encontro de Jesus com as autoridades judaicas, algo pouco usual, mas possível. De qualquer forma, as autoridades judaicas tinham como condenar, informalmente, alguém à morte por apedrejamento, método atestado no próprio Novo Testamento, bastando para isso montar uma situação pública em que o acusado fosse apedrejado por seu comportamento infame. Assim, se houve entrevista, a entrega aos romanos foi uma decisão política de deixar um revoltoso entregue aos romanos.
Como ressaltam os autores, Jesus era uma ameaça como líder popular às autoridades judaicas que colaboravam e se beneficiavam da aliança com os romanos. O encontro com Pilatos e a cena da oferta de troca do condenado por Barrabás, assim como a lavagem das mãos, vão contra toda praxe romana e parece terem sido inseridas muito posteriormente, quando os cristãos de origem não judaica buscavam angariar a simpatia dos romanos à nova religião. A crucificação, castigo comuníssimo, possuía um caráter demonstrativo muito semelhante àquele das atuais execuções públicas em países como a China, onde a população se reúne para presenciar, e mesmo vituperar contra os condenados executados ad exemplum .
Nestes casos , o condenado era normalmente apenas preso a cruz e levava muitas horas ou mesmo dias para morrer, asfixiado e sedento e, por isso, pregar a pessoa à cruz, ainda que mais doloroso, era como um coup de grace , pois apressava a morte. O prego era único nos dois pés, que não se apoiavam em nada, e os antebraços eram pregados, já que a mão não agüentaria ser transpassada pelo prego.
O livro de Crossan e Reed, dois estudiosos cristãos renomados, mostra como tanto os textos bíblicos, como os vestígios arqueológicos, permitem melhor entender o contexto em que viveu Jesus. Sua mensagem, surgida em meio à simplicidade da vida camponesa, congregava os humildes que se opunham à riqueza e à exploração das elites. O ensinamento básico de Jesus parece ter sido: “como você quer que os outros tratem você, assim você deve trata-los”. Sua oposição também parece clara: “desgraçados vocês, fariseus, pois amam estar em lugar de honra nos banquetes, nas fileiras da frente nas sinagogas e nas arcadas dos mercados”. Esse Jesus simples e revolucionário, tão bem revelado por Crossan e Reed, contrasta com o uso fundamentalista que ainda se tenta fazer do personagem histórico.
Esta, definitivamente, é uma leitura recomendada para todos que buscam compreender melhor nossa própria contemporaneidade, tão ligada às origens do Cristianismo.
Referências
Cf. James M. Robinson, The Sayings of Jesus, The Sayings Gospel Q in English , Minneapolis, Fortress Press, 2002.
Cf. Charles Perrot, Jésus , Paris, Presses Universitaires de France, 1998, pp. 104-125
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