Cartografando a Mente

Leonardo Bonilha
lxb@psychology.nottingham.ac.uk
Pós-doutorando em Neurociência Cognitiva
Université de Nottingham, Angleterre


Se a mente humana fosse simples o suficiente para ser entendida, nós seríamos simples o suficiente para entendê-la.

Emerson Pugh


Em uma noite serena, um viajante passa ao lado de uma casa em que viveu no passado. Nessa casa ele foi realmente feliz ao desfrutar do amor sincero de uma mulher que há muito tempo o deixou. Ao olhar pela janela ele vê a figura de um homem que contempla o vazio e aperta os punhos pela dor que o consome. Quando a lua ilumina a sala e a figura do homem que nela está, o viajante é tomado pelo horror ao reconhecer sua própria face. Ainda turvo pelo medo que aquela figura lhe causa, o viajante não consegue evitar o intenso ciúme daquele homem que, embora cópia de si mesmo, ousa imitar a dor que ele próprio sofreu naquele exato lugar muito tempo atrás.

Essa é a história do poema Der Doppelgänger de Heinrich Heine, que foi adaptada para música por Franz Schubert. Em alemão, doppelgänger significa cópia autônoma e independente. Segundo a tradição, todos possuem seu doppelgänger , que permanece invisível a maior parte do tempo. Quem no entanto tiver a infelicidade de ver seu doppelgänger saberá que seu fim está próximo. De fato, dias antes de morrer, a Rainha Elizabeth I da Inglaterra afirmou ter visto sua própria imagem deitada em seu leito de morte, pálida e imóvel. Por esse motivo, quando a imperatriz russa Catarina II, a Grande, viu sua imagem caminhando em sua direção, não quis arriscar e ordenou imediatamente que seus guardas atirassem na figura e dessem cabo dela. Durante os séculos XVIII e XIX as obras românticas, com sua afeição pelo sobrenatural, intensamente exploraram o mito do doppelgänger , e não é surpresa que os famosos escritores Johann Wolfgang von Goethe e Percy Bysshe Shelley afirmaram terem visto suas cópias.

Ver sua cópia, no entanto, não é privilégio dos poetas românticos. Um número surpreendentemente grande de pessoas afirma conseguir ver seu próprio corpo de um ponto de vista externo. Isso tem um nome “médico”: autoscopia. A autoscopia é relativamente similar a experiências extracorpóreas relatadas por indivíduos que se recuperaram do estado moribundo, o que em inglês se define pelo acrônimo OBE de out-of-body experience . Ambos os fenômenos ainda são considerados pertencentes ao espectro clarividente e, por muito tempo, foram os principais trunfos da defesa de que a mente e os processos gerados pelo cérebro são duas coisas independentes. Algo como dizer que todo mundo possui uma parte consciente etérea e independente que, eventualmente, pode se liberar do corpo e vagar por aí.

Figura 1: A junção têmporo-parietal é realçada em laranja

Em março deste ano, um grupo de pesquisadores suíços liderado pelo Dr. Margitta Seeck publicou um artigo em que a questão foi investigada cientificamente ( Brain 127:243-58 ). O grupo estudou um pequeno conjunto de pacientes que em comum relatavam experiências autoscópicas e extracorpóreas, porém apresentavam diferentes tipos de doenças neurológicas. De forma a investigar se havia um denominador comum ao problema, ou seja, se tais experiências podiam ser determinadas pela disfunção de alguma área cerebral específica, foram utilizadas diferentes ferramentas para mapear o cérebro desses pacientes. Combinando a análise de imagens de grande resolução da anatomia do cérebro obtidas pela Ressonância Magnética, com registros funcionais provenientes da eletroencefalografia, foi possível determinar em cada paciente qual área se encontrava alterada. Interessantemente, ao se sobreporem os mapas das lesões, uma região do cérebro denominada junção têmporo-parietal (figura 1) estava presente em quase todos os casos. A junção têmporo-parietal é notadamente responsável pela integração de várias sensações (táteis, visuais e de posicionamento do corpo) que constantemente chegam ao cérebro, “montando” a forma pela qual se entende o mundo e o posicionamento do corpo em relação ao que está ao redor. O mal funcionamento dessa região pode, portanto, acarretar o desacoplamento da percepção inconsciente do corpo e da sua representação no espaço. Quando as sensações táteis, de equilíbrio e visuais não coincidem entre si, a compreensão da localização do corpo e do que é pessoal ou extrapessoal se perde, e tem-se a origem da intrigante sensação autoscópica ou extracorpórea.

Com esse artigo, mais uma evidência se acumula de que mente e pensamento são de fato a mesma coisa. Pouca gente ainda acredita que mente, pensamento e cérebro sejam coisas independentes. Tudo, as memórias da infância, o medo de avião, a pressa, a necessidade do cafezinho, as crenças supernaturais, é de uma forma ou de outra codificado e formado pelo cérebro. Nós somos o que o cérebro de cada um de nós gera, e nós entendemos o mundo da maneira como o cérebro consegue perceber o que está ao nosso redor, sobretudo de acordo com a forma pela qual o cérebro consegue extrair informações do que nos cerca.

Muitos são os “mistérios” que ainda permanecem insolúveis sobre como o cérebro funciona. Porém, a grande quantidade de novas ferramentas de que atualmente se dispõe tem tornado a investigação dos fenômenos associados à mente e ao pensamento cada vez mais interessante e produtiva. E esse assunto é abordado de maneira muito agradável no livro “Mapping the Mind”, da jornalista médica Rita Carter (no Brasil publicado sob o título “Livro de Ouro da Mente”, pela editora Ediouro).

O livro tem como principal mérito manter-se fiel à idéia expressa por Albert Einstein na frase: “Você não entende um ponto realmente, a não ser que consiga explicá-lo à sua avó”. Escrito de maneira leve e ricamente ilustrado, o texto aborda de forma clara uma série de assuntos complexos acerca de cérebro e mente, sem se distanciar do rigor científico. Uma série de pontos naturalmente interessantes como memória, estados afetivos, dependência química e disfunções neurológicas são virtuosamente discutidos. A história do mito do doppelgänger não está presente no livro, mas um sem-número de fenômenos semelhantes, igualmente ou mais interessantres, é discutido e explicado sob a luz do conhecimento neurológico e científico. Vários cientistas famosos no campo da neurociência contribuem com pequenos artigos que são intercalados no texto. Neles são expressos diferentes pontos de vista sobre os assuntos discutidos. Notadamente, isso enriquece o texto e dá espaço a interessantes discussões como, por exemplo, se o autismo não é uma condição neurológica em que as características do cérebro masculino são potencializadas ao extremo.

Como a própria autora coloca na introdução, no entanto, o cérebro humano tem sido lento em revelar seus segredos. Embora a compreensão de uma série de fenômenos antes obscuros hoje seja corriqueira, como a história do doppelgänger ilustra, muito pouco ainda se sabe de uma série de pontos-chave relativos a como o cérebro trabalha. Da mesma maneira, ainda não está certo quais serão as contribuições sociais e terapêuticas das descobertas da atualidade. A autora consegue tecer uma rede lógica de possíveis benefícios do esforço atual em “cartografar” o cérebro e suas funções. Mais do que isso, ao apresentar as diversas ferramentas utilizadas atualmente na investigação das questões da neurociência e suas limitações, a autora consegue seduzir o leitor para os próximos passos a serem tomados pelo vasto campo da neurociência cognitiva.

Consequentemente, como um bom livro de divulgação científica, a obra se mantém fiel a uma outra idéia também expressa por Einstein, dessa vez na frase: “A teoria científica deve ser o mais simples possível, porém não mais simples além disso”.

 



 



 

 


#3 2004
A Mente-Humana
Iván Izquierdo.
A Mente-Humana: Abordagem Neuro-psicológica.
Benito P. Damasceno.
The Cognitive MRI Revolution.
Anna Cristina Nobre et alii.
Towards an Evolutionary Theory of Sleep and Dreams.
Sidarta Ribeiro.
Epilepsia: Uma Janela para o Cérebro.
Alexandre Valotta da Silva e Esper Abrão Cavalheiro.
Brincando com a linguagem e criando sentidos, ou cognição distribuída e emergência da linguagem.
Edson Françoso; Maria Luiza Cunha Lima; Orlando Bisacchi Coelho.
Biting the apple: the challenge of Artificial Intelligence.
Yurij Castelfranchi.
Cartografando a Mente,
Leonardo Bonilha.

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