O Painel Intergovernamental sobre Mudanças do Clima (IPCC) foi criado pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) e pela United Nations Environment Programme (UNEP) em 1988, com o objetivo de estudar e divulgar abertamente as informações técnicas e socioeconômicas e os impactos relevantes aos riscos à humanidade, visando criar mecanismos para a adaptação e mitigação dos efeitos das mudanças climáticas globais.
Em Fevereiro de 2007 o IPCC divulgou os resultados do seu Quarto Relatório de Avaliação das Mudanças Climáticas do planeta, chamado de IPCC-AR4 (Alley et al., 2007). Os resultados alertam para um aumento médio global das temperaturas entre 1,8ºC e 4,0ºC até 2100. Esse aumento pode ser ainda maior (6,4ºC) se a população e a economia continuarem crescendo rapidamente e se for mantido o consumo intenso dos combustíveis fósseis. Entretanto, a estimativa mais confiável fala em um aumento médio de 3ºC, assumindo que os níveis de dióxido de carbono se estabilizem em 45% acima da taxa atual. Aponta também, com mais de 90% de confiabilidade, que a maior parte do aumento de temperatura observado nos últimos 50 anos foi provocada por atividades humanas.
Mudanças na quantidade de gases de efeito estufa e aerossóis, na radiação solar e nas características da superfície da Terra alteram o balanço de energia do sistema climático. Essas mudanças são expressas em termos de forçantes radiativas, as quais são usadas para comparar como a contribuição humana e os fatores naturais influenciam no aquecimento ou no resfriamento do sistema climático. Forçante radiativa é a medida de influencia que um fator tem de alterar o balanço de energia que entra ou sai no sistema terra-atmosfera e é um índice de importância do fator como um potencial mecanismo de mudança climática. Desde o Terceiro Relatório (AR, sigla em inglês), novas observações e modelos relacionados aos gases de efeito estufa, atividade solar, propriedades da superfície da Terra e alguns aspectos de aerossóis têm levado a melhores estimativas das forçantes radiativas.
A concentração atmosférica de dióxido de carbono (CO 2 ), metano (CH 4 ) e óxido nitroso ( N 2 O) tem aumentado significativamente como resultado das atividades humanas desde 1750. Esse aumento se deve principalmente à queima de combustível fóssil e mudanças de uso da terra, enquanto o metano e o óxido nitroso são principalmente devido à agricultura.
O dióxido de carbono é o mais importante gás de efeito estufa provocado pelas atividades humanas. A concentração desse gás na atmosfera vem aumentando nos últimos 650.000 anos, de 180 ppm para 300 ppm, respectivamente. Entretanto houve um aumento mais pronunciado desde a era pré-industrial, passando de 280 ppm para 379 ppm em 2005, sendo que na última década, entre 1995 e 2005, houve a maior taxa de aumento.
É muito provável que o aumento da concentração do metano na atmosfera se deva às atividades antrópicas, principalmente à agricultura e ao uso de combustíveis fósseis. Sua concentração passou de 715 ppb na era pré-industrial para 1.732 ppb no início da década de 90 e 1.774 ppb em 2005. Sua taxa de crescimento declinou na última década, mantendo-se praticamente constante até 2005. E por último, o óxido nitroso, que também teve aumento em sua concentração na atmosfera, principalmente devido à agricultura: passou de 270 ppb na era pré-industrial para 310 em 2005, mantendo-se praticamente constante desde 1980.
O entendimento da influência das atividades humanas no aquecimento ou no resfriamento do clima aumentou desde o último relatório, levando a uma certeza maior de que as atividades humanas desde 1750 têm contribuído com o aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera. As forçantes radiativas combinadas, devido ao aumento do dióxido de carbono, metano e óxido nitroso e sua taxa de aumento durante a era pré-industrial, muito provavelmente não têm precedentes em mais de 10.000 anos. A forçante radiativa do dióxido de carbono aumentou 20% entre 1995 e 2005, a maior mudança ocorrida no mínimo nos últimos 200 anos.
O aumento das concentrações de gases de efeito estufa e seus conseqüentes efeitos são mais bem entendidos neste relatório, devido a uma melhor medição in situ , por meio de satélites, estações de coletas de dados na superfície e um melhor conhecimento dos modelos, embora ainda existam incertezas de como esse complexo sistema funcione e como poderá se comportar no futuro.
Considerando a temperatura média global da superfície da Terra e dos oceanos no período desde 1850, os dez anos mais quentes da história estão no período de 1995 a 2006. A taxa de aumento entre 1850 e 1899 foi 0,57 ºC , enquanto que entre 2001 e 2005 essa taxa passou para 0,95 ºC , correspondendo a um aumento médio no período de 0,76 ºC .
Análises das características dos oceanos têm comprovado as mudanças no clima ao longo dos anos. Entre elas destacam-se mudanças na temperatura do gelo do Ártico, mudanças na distribuição das precipitações, salinidade dos oceanos, mudanças nos padrões de ventos e eventos extremos do clima, como secas, intensas precipitações, ondas de calor e intensidade dos ciclones tropicais.
O aquecimento dos oceanos e da atmosfera, juntamente com o derretimento das geleiras, leva à conclusão de que é muito pouco provável que as mudanças climáticas globais dos últimos 50 anos possam ser explicadas sem o componente antrópico e evidentemente que não é devido somente às causas naturais.
A contínua emissão de gases de efeito estufa poderia causar um aquecimento e induzir muitas mudanças no sistema climático global durante o século XXI. As estimativas mais prováveis de aumento da temperatura da superfície consideram os cenários extremos de altas emissões (A2) e de baixas emissões (B2), que foram usadas para o Terceiro Relatório. Somente as análises de extremos de clima usam as projeções geradas que fazem parte do Quarto relatório. A estimativa mais otimista (B1) indica um aumento de 1,8 ºC e a mais pessimista (A1F1) indica um aumento de 4 ºC (Figura 1) .