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Análise Quantitativa do Termo Interdisciplinaridade no período de 1970 a 2004
Lorena Dall´Ara Guimarães & Míriam Plaza Pinto
Departamento de Biologia Geral, ICB, Universidade Federal de Goiás, Caixa Postal 131, 74001-970, Goiânia, Goiás, Brasil. E-mail: dallaralorena@ig.com.br
RESUMO
Estudos sobre interdisciplinaridade têm despertado grande interesse nas ciências nos últimos anos. O objetivo deste trabalho foi fazer uma análise quantitativa temporal, através de uma abordagem cienciométrica, do termo interdisciplinaridade, desde 1970 até maio de 2004. Para isso, foi feita uma revisão de títulos e resumos de trabalhos disponíveis no ISIWeb of Science (Institute for Scientific Information) (1). 469 trabalhos foram encontrados, sendo que a maior parte (87,42%) foi indexada a partir de 1990. Os EUA lideram como país de maior número de cientistas e revistas que publicaram sobre o assunto, porém houve baixa correlação entre a origem do autor e o país da revista, indicando que a maioria dos autores não publica em revistas de seus próprios países. Sob forma de artigos foram publicados 314 trabalhos. Uma revisão feita por Nakamura (2) se destacou como a contribuição mais citada (105 citações), enquanto muitas foram citadas apenas uma vez (77 trabalhos) ou não foram citadas (75 trabalhos). Mais de 300 trabalhos apresentaram o termo interdisciplinaridade no título.
Palavras-chave:interdisciplinaridade, pesquisa científica, cienciometria
INTRODUÇÃO
Há uma crescente preocupação com o monitoramento da produção científica, tanto no plano nacional quanto no internacional, realizando-se atualmente estudos sobre esse assunto abrangendo questões como dispersão, concentração e discrepância nas diversas áreas do conhecimento (3). Parte desta preocupação vem da dificuldade em se medir o real progresso científico (4) (5).
A cienciometria pode ser definida como uma avaliação quantitativa das atividades científicas e tecnológicas tendo como principal objetivo focalizar o número de citações que podem ser usadas para identificar áreas emergentes, novas metodologias, ou mesmo a estrutura de vários centros de pesquisa (6) (7). Sua importância se deve ao fato de sua capacidade de analisar os aspectos quantitativos referentes à geração, propagação e utilização de informações científicas, e de medir a produção científica de um país, de uma comunidade científica ou de uma instituição (8).
Um dos primeiros trabalhos envolvendo cienciometria foi o do ecólogo austríaco Lotka (9), porém, somente a partir da década de 1950, com a criação do Institute for Scientific Information (ISI) por Garfield (10), esse tipo de pesquisa passou a ser tema de vários trabalhos. No entanto, Verbeek (7) cita o livro Little Science, Big Science, do autor Price (11), como sendo o pioneiro em cienciometria. De acordo com Arnqvist & Wooster (12), a revisão de artigos científicos é considerada importante para o desenvolvimento da ciência, pois representa uma forte base para a elaboração de sínteses conceituais e para o desenvolvimento de teorias. Além disso, a capacidade de julgar a posição de uma nação científica é vital para os governantes e empresários, que decidem prioridades científicas e angariam fundos para essas prioridades (13).
A análise quantitativa de resumos representa um importante instrumento no estudo da ciência tem sido utilizada em diferentes áreas do saber (11) (14). A internet como um novo meio de comunicação acadêmica é mais acessível do que as publicações formais, o seu uso provavelmente transformará as práticas existentes e introduzirá novas práticas (15). Estudos de análise quantitativa geralmente são realizados através de bancos de dados que indexam as revistas científicas (8). Através dos bancos de dados é possível determinar se as taxas de citação para os artigos publicados, em cada categoria estudada, estão aumentando ou diminuindo (16).
Estudos e análises sobre interdisciplinaridade têm despertado grande interesse nas ciências, nos últimos anos (17) (18) (19) (20) (21) (22), e geralmente têm sido feitas de várias formas, múltiplas metodologias. A interdisciplinaridade une os componentes de duas ou mais disciplinas levando um novo conhecimento, o qual seria impossível sem essa integração (19) (23) (22). A pesquisa interdisciplinar tem como objetivo ou como principal resultado romper as barreiras das especialidades. É preciso superar a dicotomia ciência/existência no trato da interdisciplinaridade, pois qualquer atividade interdisciplinar, seja ela de ensino, seja de pesquisa, requer uma imersão teórica nas discussões epistemológicas mais fundamentais e atuais, e envolve uma reflexão profunda sobre os impasses vividos pela ciência atualmente (24). Nesse sentido, Fazenda (24) enfatiza a crise das ciências, das teorias, dos modelos, dos paradigmas, e a descrença em algumas profissões, mostrando que é necessário ter a compreensão da dinâmica vivida por esta crise, e ter percepção da importância e dos impasses a serem superados. Portanto, é importante uma visão mais holística do conhecimento.
Este trabalho teve como objetivo fazer uma análise quantitativa temporal, através de uma abordagem cienciométrica, do número de citações que o termo interdisciplinaridade recebeu a partir de 1970 (ano em que artigos relacionados ao tema começam a ser indexados no ISI) até maio de 2004. Identifica qual o país que mais publicou sobre o tema, qual o trabalho mais citado, que tipo de documento apresentou maior número de trabalhos, quais revistas apresentaram mais trabalhos relacionados ao tema, em qual período, qual o país de origem do autor principal (caso tenha havido mais de um autor), e quantas vezes o termo interdisciplinaridade aparece nos títulos dos trabalhos listados.
MATERIAL E MÉTODOS
Utilizando a rotina “General Search” do sítio ISIWeb of Science (1), foi realizada uma busca de todos os trabalhos que citavam a palavra interdisciplinarity no título, resumo ou palavras-chaves. As seguintes informações foram obtidas: a) ano de publicação, b) país de origem do autor principal, c) país da publicação, d) tipo de documento, e) revista, f) número de citações, g ) título do trabalho e h) área de conhecimento.
Os resumos foram analisados a partir de 1970, primeiro ano de registro para o termo, até 17 de maio de 2004, dia no qual o levantamento foi realizado.
Usando todas as áreas do conhecimento foi montada uma matriz de freqüência de co-ocorrência das palavras encontradas nos 470 resumos desde 1970 a 2004, para avaliar quais áreas mais se associavam nos estudos interdisciplinares.
RESULTADOS
No levantamento realizado, foram encontrados 469 trabalhos utilizando o termo interdisciplinarity. Desses, 202 não apresentaram resumo disponível, entre todos do período entre 1970 a 1990.
O primeiro estudo utilizando o termo interdisciplinarity foi publicado em 1970, porém , somente a partir da década de 90, foi observado um aumento significativo de trabalhos (Figura 1). O maior número de trabalhos publicados sobre o tema foi observado em 1996. O baixo número de trabalhos em 2004 foi em função do levantamento ter sido realizado somente até o dia 17 de maio.

Figura 1:Número de trabalhos publicados ao longo dos anos (total = 469) que continham a palavra interdisciplinarity.
Os trabalhos foram publicados por autores de 38 países de origem diferentes (foi considerado o país onde o autor principal trabalha) (Figura 2). Porém, 50,74% dos trabalhos foram desenvolvidos por autores de apenas 3 nacionalidades (34,75% EUA, 8,74% Inglaterra e 7,25% Canadá). Além destes, 8 países (Alemanha, França, Holanda, Suíça, Espanha, Brasil, Dinamarca e Suécia) apresentaram 5 ou mais trabalhos, e 27 países com menos de cinco trabalhos entraram na categoria “outros”. Um total de 47 estudos não apresentou informação a respeito da origem do autor principal. Apenas 8 trabalhos foram publicados por autores principais trabalhando no Brasil.

Figura 2:País de origem do autor principal (total = 469) dos trabalhos que continham a palavra interdisciplinarity.
Em relação ao local de publicação (país da revista), 2 países publicaram 64,18% do total de trabalhos (43,5% EUA e 20,68% Inglaterra), 7 países (Holanda, França, Alemanha, Canadá, Suíça, Espanha e Brasil) apresentaram cinco ou mais trabalhos e 21 países, apresentando menos de cinco, foram agrupados na categoria “outros” (Figura 3). É importante enfatizar que muitos autores não publicam nas revistas de seus países (ver Figuras 2 e 3).

Figura 3:País da revista de publicação dos trabalhos (total = 469) que continham a palavra interdisciplinarity.
A maioria dos documentos (N = 314) foi apresentada em forma de artigo (Figura 4). Os outros tipos de documentos encontrados foram “Material Editorial” (N = 47), “Carta” (N = 41), “Revisão de Livro” (N = 38), “Revisão” (N = 15), “Notas” (N = 7) e “Anais” (N = 4). Os trabalhos classificados como Discussão, Novidades (News Item) e Reimpressão ocorreram apenas uma vez e foram incluídos na categoria “outros”.

Figura 4: Tipos de documentos (total = 469) que continham a palavra interdisciplinarity.
Os trabalhos analisados foram publicados em 280 revistas diferentes, porém a maior parte (271 revistas) continha menos de 5 artigos publicados, e 98 trabalhos apareceram nas 9 revistas restantes (Figura 5). A revista americana PMLA - Publications of the Modern Language Association of American apresentou 42 publicações, seguida pela revista húngara Scientometrics , com 15 publicações.

Figura 5: Principais revistas de publicação dos trabalhos (total = 98) que continham o termo interdisciplinarity. PMLA - Publications of the Modern Language Association of American; JGHE - Journal of Geography in Higher Education; LISR - Library & Information Science Research; SHE - Studies in Higher Education.
Um grande número de trabalhos (N = 75) não foi citado nenhuma vez por outros trabalhos, e 77 foram citados apenas uma vez (Figura 6). Um trabalho foi destacadamente citado 105 vezes, trata-se de uma revisão feita por Nakamura (2), publicado na revista International Reviews in Phisical Chemistry. Esse trabalho não está evidenciado na Figura 6 porque o número muito alto de citações se comportaria como um outlier, deixando o gráfico visualmente intratável.

Figura 6: Número de citações dos trabalhos (total = 468) que continham o termo interdisciplinarity. Um trabalho teve um número muito alto de citações (N=105) e por isso foi excluído do gráfico acima.
Uma análise verificando se o termo interdisciplinarity era citado no título, revelou que cerca de 302 resumos citaram o termo interdisciplinarity no título enquanto 153 não citaram. Três citaram no título os termos inter e multidisciplinarity, 3 citaram inter e transdisciplinarity, 3 citaram só transdisciplinarity, 4 só multidisciplinarity e 1 trabalho citou o termo metadisciplinarity.
A matriz de freqüência de ocorrências simultâneas das palavras discriminou 130 áreas diferentes. A partir desta, uma tabela com as palavras que ocorriam simultaneamente 10 vezes ou mais, mostrou que as disciplinas estudadas / pesquisadas / aplicadas num mesmo trabalho pertenciam à mesma grande área, predominantemente Ciências Humanas (Tabela I). Nota-se que nenhum par de palavras com grande freqüência pertencia às Ciências Biológicas ou Exatas. O par Linguagem-Literatura apresentou 47 ocorrências.
Tabela 1:Número de ocorrência simultâneas de áreas nos 469 artigos. Foram incluídos apenas os pares que ocorreram simultaneamente 10 vezes ou mais.
nº de
co-ocorrências |
áreas |
47 |
Linguagem-Literatura |
22 |
Sociologia-Educação |
14 |
Sociologia-Psicologia |
Linguagem-Educação |
13 |
História-Sociologia |
11 |
Cultura-Educação |
Psicologia-Educação |
Política-Educação |
10 |
Política-Economia |
Política-Sociologia |
DISCUSSÃO
Em um nível macro, indicadores do ISI são muito usados devido serem facilmente aplicáveis (21). Para esse estudo foram utilizados os periódicos indexados no ISI, e somente os títulos, resumos e palavras-chave disponibilizadas foram analisadas. Dessa forma, algumas informações importantes podem não ter sido adquiridas. É importante ressaltar que milhares de artigos, com distribuição restrita, podem não ter sido computados, o que prejudica principalmente a produção dos países menos desenvolvidos (8) (25). Além disso, vários autores têm questionado sobre a importância do ISI como banco de dados (11) (26) (27). Morillo et al. (21) apontam incerteza quanto a validade do ISI , como indicador da interdisciplinaridade, principalmente nos casos de categorias amplas como Química ou Física.
O primeiro trabalho, listado pelo ISI data do ano de 1970. O movimento da interdisciplinaridade surge na Europa, na década de 1960, época que aparecem os movimentos estudantis, reivindicando um novo estatuto de universidade e escola. Na década de 1970, esta tentativa convergiu para a organização de uma nova forma de conceber a universidade, na qual as barreiras entre as disciplinas poderiam ser minimizadas e nela seriam estimuladas as atividades de pesquisa coletiva e inovação no ensino (24). Outros autores têm demonstrado a difusão e expansão da inter e multidisciplinaridade dentro das ciências (22). Esses fatores devem ajudar a explicar o aumento significativo do número de trabalhos a partir da década de 1990. Isso coincide com o processo de globalização, que resulta no aumento do uso da literatura internacional, através de banco de dados (5). O ano de 1996 apresentou um grande número de trabalhos, o que pode ser explicado devido a ocorrência do Forum & Interdisciplinarity in Literary Studies – Defining Interdisciplinarity, realizado em Nova Iorque, onde 41 trabalhos foram listados somente para esse evento.
Pesquisadores de várias nacionalidades vêm trabalhando a interdisciplinaridade, e, de acordo com Peters (28) a relevância de um trabalho científico pode ser indicada pelo número de pesquisadores interessados em uma determinado tema. Porém, apesar da grande variedade de origens dos autores, pode-se claramente observar uma predominância de autores provenientes de países desenvolvidos. O mesmo pode ser observado em relação ao país da revista de publicação, mas isso pode estar prejudicado por um viés pelo fato das revistas indexadas serem majoritariamente pertencentes a esses países.
É amplamente reconhecido pelos historiadores da ciência e pelos pesquisadores que a principal forma de expressão científica é o artigo (16), o que foi confirmado pela alta freqüência deste tipo de documento. De acordo com Tijssen (29), em relação às publicações científicas, Notas e Cartas são consideradas menos importantes.
Há muitas formas de avaliar a qualidade da pesquisa científica, mas poucas têm sido satisfatórias (13). A qualidade de um trabalho é definida pelo que ele possui de útil para a comunidade em um dado momento, podendo ser indicado pelo número de citações que recebe, pois na maioria das vezes há uma forte correlação entre o número de citações e a qualidade de um artigo científico (6). Neste sentido, o trabalho de Nakamura (2) pode ser considerado de alta qualidade. Um problema apontado por King (13) para este tipo de análise bibliométrica, é que artigos individuais podem alterar os resultados e alguns artigos podem ser altamente citados porque têm sido desacreditados, ou porque seus autores citam várias vezes seus próprios trabalhos. Além disso, uma simples medida da importância através do número de citações pode ter viés por causa da data de publicação do artigo. Um artigo pode ter um número alto de citações, mas haverá sua importância será diferente se ele tiver sido publicado há 20 anos ou apenas há 5 anos.
Foi observado durante o levantamento que alguns trabalhos teorizam sobre a importância da interdisciplinaridade, ou simplesmente explicitam que são necessários mais estudos interdisciplinares sobre o assunto. No entanto, muitas vezes não foi possível determinar se a pesquisa era realmente interdisciplinar (abrangendo estudos de áreas diferentes), se teorizava sobre isso, ou se era somente um cruzamento entre disciplinas (21). Segundo Hicks & Katz (17), as pesquisas estão se tornando mais interdisciplinares nos últimos anos, porém os dados são mais ambíguos no que diz respeito à aplicação e concentração. Para Dalgaard et al. (30) a interdisciplinaridade é um problema porque pesquisadores de diferentes disciplinas vêem o mundo sob pontos de vista diferentes, usam linguagens diferentes, trabalham em locais diferentes e ainda usam diferentes critérios para avaliar o trabalho do outro.
Foi comum o uso do termo interdisciplinarity nos títulos dos trabalhos. Observamos também, ainda que em poucos casos, a ocorrência dos termos multidisciplinarity, transdisciplinarity e metadisciplinarity. De acordo com Santomé (23), conforme o grau de integração das diferentes disciplinas reagrupadas, pode-se estabelecer diferentes níveis de interdisciplinaridade. A multidisciplinaridade caracteriza-se por uma simples justaposição de disciplinas sem nenhuma integração ou tentativa de explicitação das possíveis relações entre elas. A transdisciplinaridade ou metadisciplinaridade é a etapa superior de integração entre as disciplinas, trata-se da construção de um sistema total, sem fronteiras sólidas, ou seja, de uma teoria geral de sistemas ou de estruturas, que inclua estruturas operacionais, estruturas de regulamentação e sistemas probabilísticos, e que una estas diversas possibilidades por meio de transformações reguladas e definidas.
Na consideração de Leff (31), a interdisciplinaridade não se relaciona somente com os interesses e articulação das ciências existentes, mas sim com as ideologias e teorias que produzem sentidos e mobilizam ações sociais para a construção de outra racionalidade social. De acordo com Jantsch & Bianchetti (32), ao buscar a interdisciplinaridade, devemos pensar na origem (todas as circunstâncias acadêmicas que conduzem uma atividade interdisciplinar), na motivação (todas as necessidades intelectuais e emocionais relacionadas com a ideologia dos atores), e no objetivo, uma vez que a interdisciplinaridade pode levar a uma gama extremamente variada de disciplinas.
Mesmo tendo sido possível definir várias áreas de concentração dos trabalhos, aquelas com maiores freqüências de ocorrências simultâneas (Tabela I) pertenciam a apenas uma grande área, a Ciências Humanas. Qin & Lancaster (20) mostraram que há diferenças significativas nos graus de interdisciplinaridade entre diferentes níveis de colaboração e principalmente entre diferentes disciplinas. Eles concluíram que a colaboração entre pesquisadores contribui significantemente para o grau de interdisciplinaridade em algumas disciplinas, mas não em outras.
É importante observar que algumas áreas de concentração aqui criadas para avaliar o grau de interdisciplinaridade, talvez não reflitam uma atitude, necessidade ou objetivos de associação dessas ciências para fins realmente interdisciplinares, podendo ser, por exemplo, uma contingência do objeto estudado em função do grau de associação das subclasses criadas. Isso pode ser explicado em função de algumas subáreas (e.g. linguagem e literatura, antropologia e sociologia, fisiologia e anatomia) pertencerem à mesma grande área (letras, ciências sociais e biologia, respectivamente).
A questão da interdisciplinaridade está intimamente ligada ao tema do pluralismo. A inevitabilidade do pluralismo em algumas áreas se deve ao fato de que o objeto de estudo é extremamente complexo e permite enfoques distintos ou, na verdade, o objeto de estudo é sempre o mesmo e as várias abordagens são abordagens do mesmo objeto e, por isso, complementares (33). As aproximações e os distanciamentos entre as disciplinas não ocorrem gratuitamente. As fronteiras disciplinares sempre estão sujeitas a modificações, as coligações entre as disciplinas também se acham sujeitas a mudanças, que nunca acontecem por acaso. Tampouco acontecem por motivo de somar esforços como num “mutirão”, mas provavelmente em resposta a certos realinhamentos, os quais só podem ser explicados quando o trabalho acadêmico é pensado cheio de tensões e contradições, o que reflete a lógica da dialética (33).
Outro ponto que deve ser ressaltado podendo influenciar os resultados, é o da variação no uso da internet entre pesquisadores de diferentes disciplinas, o que provavelmente é resultado das diferentes necessidades de comunicação e de compartilhamento de recursos de pesquisas (15). Apesar de não existirem dados quantitativos para mostrar diferenças estatísticas significativas nos padrões de comunicação via internet entre as ciências naturais, sociais e humanas, sabe-se que mesmo nas publicações tradicionais há uma série de diferenças concretas, tanto substanciais quanto sutis (34).
A concentração dos trabalhos na área de ciências humanas poderia aumentar se a busca pelos artigos tivesse também sido feita usando a palavra interdisciplinaridade não apenas em inglês, pois a tendência atual existente ao monolingüismo não acontece da mesma maneira em diferentes áreas. A principal língua tanto nas comunicações de pesquisa via internet quanto formais é o inglês. Na internet, além da maioria dos sítios serem em inglês, para aqueles que não são em inglês, existe muitas vezes uma versão nesta língua. Existem revistas em várias línguas, revistas bilíngües e com versões traduzidas, mas as revistas que têm altos índices de impacto (ver definição em 6 e 7) são predominantemente aquelas em inglês, tais como a Science e a Nature (29,162 e 30,979, respectivamente; veja www.periodicos.capes.gov.br). Deve ser ressaltado que há diferenças entre impacto nacional, onde publicações no idioma local estão influenciando, e impacto internacional dessas publicações (predominantemente em inglês), o que não é uma indicação de que essas sejam de melhor qualidade (35).
O objetivo deste trabalho foi demonstrar a importância do enfoque interdisciplinar na aquisição do conhecimento e na resolução de problemas, e como isso vem sendo uma tendência mundial, especialmente em função da globalização. O s problemas complexos da atualidade requerem tratamento interdisciplinar (23) (36). O mundo assistiu fragmentações do conhecimento, disciplinas isoladas, desintegração dos saberes e dinâmica da s especializ ações, retirando da epistemologia a grande tarefa de identificar as interfaces existentes entre os diversos ramos dos saberes. Todavia, já situando-nos no Terceiro Milênio em que os valores em transição são caracterizados pela chamada “pós-modernidade”, a humanidade exige que cada especialista transcenda suas limitações, trazendo a perspectiva interdisciplinar em todas as áreas do conhecimento.
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outubro 2005 |
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