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Ser Rede: Vida Pessoal e Participação Política nas Redes Ecofeministas
Regina C. Di Ciommo - rdiciommo@linkway.com.br
A autora é doutora em Sociologia e realiza pós-doutorado no Laboratório de Ecologia Humana LEHE Departamento de Hidrobiologia, da UFSCar Universidade Federal de São Carlos, SP, Brasil

resumo
Tendo em vista o debate sobre a pertinência dos valores e teorias ecofeministas para o movimento emancipatório das mulheres, esta pesquisa tentou analisar práticas, valores e participação política entre as integrantes das redes brasileiras ecofeministas e feministas, com o objetivo de investigar de que maneira se revelam na vida pessoal e nas atitudes dos membros dessas organizações não governamentais. A rede pode ser considerada como uma importante forma nova de organização não hierárquica, na qual o novo paradigma de relacionamentos pode se desenvolver. Foram observadas contradições entre os discursos ecofeministas e as dificuldades encontradas nas práticas diárias e nos relacionamentos familiares. O necessário processo de transformação parece ainda estar em seu início. A aprendizagem e a mudança nas relações no âmbito doméstico parecem se refletir nas práticas políticas da esfera pública e, por outro lado, o ativismo ambiental, suas lutas e conquistas atuam como referência para mudanças na esfera pessoal e privada, em um processo de consolidação da cidadania feminina através da participação em organizações ecofeministas e feministas.
PALAVRAS CHAVE: redes movimento ecológico feminismo ecofeminismo gênero participação política.
INTRODUÇÃO
Este trabalho é resultado de pesquisa realizada entre mulheres integrantes de organizações não governamentais em rede, especificamente aquelas cujo objetivo principal é a valorização e fortalecimento das mulheres, ao mesmo tempo em que buscam difundir novos modelos nas relações com o meio ambiente.
Se por um lado a atuação pública dessas organizações é divulgada através da mídia, internet, material promocional e publicações, por outro as práticas, experiências e vivências de seus integrantes permanecem no âmbito da vida privada. Mesclam-se os pontos de convergência, onde valores e práticas pessoais condicionam a experiência política, entendida de forma abrangente, que por sua vez se reflete no âmbito doméstico, onde ocorrem relações de afeto e também de poder.(1)
Em alguns estudos sobre o ativismo ambiental das mulheres(2)(3)(4) é apontada a maneira como a organização, a mobilização e a luta para atingir objetivos coletivos acabou por introduzir mudanças nas relações pessoais e no cotidiano doméstico, de forma que, à medida em que as mulheres avançam nas ações coletivas, também avançam na conquista de novos espaços e novas relações de gênero, constituindo-se num processo complexo de amadurecimento, que tende à mudança social. Conhecer essa experiência, aprofundando as reflexões sobre esse processo e a difusão e aceitação dos valores ecofeministas nas organizações enfocadas, foi o objetivo deste trabalho.
A hipótese deste trabalho é de que há uma estreita relação entre a estrutura das redes e as propostas do movimento das mulheres. Ausência de centralismo, flexibilidade, valorização pessoal e solidariedade são valores com os quais o movimento das mulheres se identifica. Talvez isso explique o fato de que grande parte das organizações formadas por mulheres tenha o caráter de rede.
O novo paradigma no poder e na política aproxima-se da experiência feminina, porque considera o contexto da vida privada, sem que este seja desvalorizado ou julgado segundo uma escala hierárquica de valor.(5) A inter-relação existente entre a esfera pública e produtiva e a esfera privada e reprodutiva na vida das mulheres parece ser o componente essencial para a compreensão das dificuldades e ritmos especiais que regem a participação política e as trajetórias femininas.(6)
Para se ter uma idéia da importância da conexão entre as redes e o movimento de mulheres, a organização do Planeta Fêmea durante a Eco-92 baseou-se inteiramente nas redes feministas espalhadas pelo mundo. Sua estrutura foi montada para dar voz às várias redes de continentes e países. Cada uma delas encarregou-se de preparar um tema específico, desenvolvido a cada dia. No plano internacional, as redes feministas estruturam-se em vários níveis, sendo que em alguns casos não têm o nome de rede, mas são ONGs com a dinâmica de rede.
A rede assemelha-se a uma versão moderna da velha relação tribal ou familiar, agora ampliada pelas comunicações eletrônicas. Ela gera um complexo de significados que pode oferecer ao indivíduo apoio emocional, intelectual, espiritual e econômico. Para Ferguson,(7) o rápido surgimento de redes e a sua força demonstram o impulso para a transformação que elas estão trazendo em todo o mundo. Como um novo modelo de organização social, adaptam-se melhor à diversidade de contextos sociais e ritmos biológicos e favorecem a participação. Sendo uma estrutura aberta, em constante fluxo, está sempre pronta para ser reorganizada. As redes são cooperativas, não competitivas, autogeradoras, auto-organizadoras. Representam um processo, ao contrário da estrutura cristalizada, hierárquica, piramidal e burocrática de organização tradicional. Têm como característica os principais fundamentos do novo paradigma de poder e política, porque são baseadas no apoio mútuo, no enriquecimento e fortalecimento do indivíduo e na cooperação, nos valores e pressuposições aceitos e compartilhados entre seus membros.
Ao mesmo tempo em que fortalece a autonomia, a rede proporciona o relacionamento e a ação coletiva. Não só pessoalmente, mas também através de computadores, as redes conectam quem tenha interesse, habilidades e objetivos complementares.
Seus integrantes se ligam horizontalmente a todos os demais, diretamente ou através dos que os cercam. O conjunto resultante é semelhante a uma malha de múltiplos fios, que pode se espalhar indefinidamente por todos os lados, sempre aberta à entrada de novos participantes, sem que nenhum de seus fios possa ser considerado principal ou central. Não há um "chefe" e sim uma vontade coletiva de realizar determinado objetivo. Segundo Whitaker, quando esse objetivo depende menos da disciplina e mais da co-responsabilidade e capacidade de iniciativa de cada um, a organização em rede, horizontal, parece ser a melhor alternativa.(8) Quanto à convivência em meio à diversidade, as redes são formas organizacionais que consideram a diversidade benéfica, evitando a dominância de um único segmento.
De acordo com Tereza Moreira,(9) sócia-educadora da Rede Mulher de Educação, os modelos de redes incluem desde as que contam com um único elemento articulador e outros que gravitam em torno dele e outras, em que todos os elementos se relacionam entre si. Há ainda aquelas intermediárias, em várias graduações entre esses dois extremos.
O MOVIMENTO ECOFEMINISTA
O movimento Ecofeminista emergiu na década de 80, com valores, práticas e ética específicas.(10)(11)(12)(13)(14)(15)(16)(17)(18)(19) Iniciando com o ativismo ambiental das mulheres, na defesa da saúde e segurança ambiental para suas famílias, a nova corrente ambientalista do feminismo abriu espaço para seu reconhecimento, através da liderança de Petra Kelly no Partido Verde alemão, e firmou-se como uma corrente específica e distinta do feminismo anterior, após o encontro promovido pelas Nações Unidas (UNCED) no Rio de Janeiro, em 1992.(20)
Nesse momento, os debates entre o movimento das mulheres e o movimento ecológico levaram ao amadurecimento das reflexões sobre a importância do meio ambiente para a saúde do corpo e da mente e o bem-estar das gerações atuais e futuras, ao mesmo tempo em que os movimentos sociais representados no evento reconheciam que, sem o despertar da cidadania feminina, com a conseqüente conscientização de seus direitos, inclusive os reprodutivos, não se poderia chegar a uma política ambiental e preservacionista efetiva.(21)
As organizações ecofeministas enfatizaram a ligação entre mulheres e meio ambiente, destacando a necessidade de se pensar o papel das mulheres no desenvolvimento sustentável e na eliminação da pobreza, através, dentre outros fatores, do reconhecimento do sexismo, ou seja, da dominação do gênero feminino, pelas formas discriminatórias da cultura masculina. Mais recentemente, as organizações ecofeministas vêm desenvolvendo projetos em que a ênfase é dada ao enfoque de gênero, para a execução de políticas públicas efetivas de desenvolvimento que beneficiem comunidades, nas quais o acesso e controle dos benefícios gerados pelos recursos naturais devem ser inclusivos para homens e mulheres, quando se tem em vista o êxito das iniciativas.(22)
A TRAMA DAS REDES
Esta pesquisa foi realizada entre integrantes de organizações ecologistas e feministas em rede, com o objetivo de avaliar valores e práticas das mulheres integrantes. A análise apoiou-se na observação das histórias pessoais, considerando a atividade interna e formação das entidades; a presença em encontros e discussões; opiniões sobre os rumos do movimento ecofeminista atual; profissionalização; ativismo ambiental; representações pessoais sobre o ecofeminismo; representações da maternidade; a partilha das tarefas domésticas; o cuidado dos filhos; a participação política e seus efeitos na vida privada; a coexistência com a diversidade; e o conflito nas organizações.
Foram entrevistadas em média três mulheres participantes de cada organização, escolhidas considerando-se a dimensão da rede e o material institucional, como folhetos, cadernos, publicações e correspondências previamente coletados. Acreditamos que o número de respostas e o conteúdo obtido permite um nível razoável de generalizações.
De um total de 30 questionários distribuídos pelo correio, recebemos 18 preenchidos por mulheres representantes de ONGs, conectadas em rede.(B) Não encontramos homens entre os quadros dessas organizações. Seis informantes pertenciam à faixa etária de 20 a 30 anos, seis à de 40 a 45 anos e seis à de 50 a 65 anos. Um total de 6 mulheres (33%) não tinha filhos, seis tinham um filho (33%) e seis tinham dois filhos (33%). Doze delas eram solteiras ou divorciadas e seis eram casadas ou unidas consensualmente.
As participantes têm perfil de ativistas, freqüentando encontros e reuniões. Em 4 casos as entrevistadas estavam trabalhando com projetos de proteção à natureza, educação ambiental e recuperação de áreas degradadas de mata.
Com relação à história de participação em movimentos sociais, a maioria (10) neles ingressou no ano de 1975, Ano Internacional da Mulher, criado pela ONU, o que demonstra o interesse despertado, na época, pela defesa dos direitos das mulheres. Na década de 70, duas delas freqüentavam grupos feministas no exterior, como exiladas políticas na França e no Peru. Duas começaram a militar em grupos feministas autônomos, através de participação em pesquisa-ação com mulheres da Baixada Fluminense (RJ), na assessoria de uma deputada estadual e após participar da Tribuna Internacional da Mulher.
As mais jovens ingressaram recentemente no movimento, através de interesses acadêmicos, e uma delas por ter trabalhado numa empresa estatal de saneamento, em programa de educação ambiental.
As organizações das quais fazem parte estão conectadas a várias redes, algumas delas em expansão, contando, como a Rede Mulher de Educação, com até 200 filiadas(os) e 3.000 pessoas ou instituições que recebem seus periódicos. Um número bem maior de pessoas era atingido pelos programas de rádio mantidos pelo CEMINA, como o "Fala Mulher", no Rio de Janeiro e o “Natureza Mulher”, em Brasília, além de programas especiais gravados e distribuídos para todo o país.
O Grupo GAMBÁ da Bahia contava com 300 associados(as), assim como a Rede de Arte e Literatura Feminista, do Rio de Janeiro. A maioria dos grupos conta com 20 a 30 integrantes, diretamente ligadas ao trabalho desenvolvido e geralmente 5 pessoas trabalhando como equipe técnica de apoio.
As participantes da pesquisa se identificaram como profissionais de: jornalismo (1), professoras universitárias (2), sociólogas (3), educadoras (2), estudante de prótese (1), apiculturista (1), empregada doméstica diarista (1), biólogas (3), técnica de horta orgânica (1), empresárias (2), professoras de primeiro grau da rede pública de ensino (3) e auxiliares administrativas (2).
VALORES DOS MOVIMENTOS ECOFEMINISTAS
O ecofeminismo, para as entrevistadas, é um feminismo com bases ecológicas, tratando de modo mais equilibrado os assuntos políticos, espirituais e sociais, dando ênfase à vida. Nesse sentido há uma valorização da relação das mulheres com a natureza, no que se refere à reprodução e também à produção. Segundo elas, apesar de ser uma resposta do feminismo à problemática ambiental, o ecofeminismo não constitui uma unidade e, portanto, cada tendência dá ênfase a valores diferentes.
O ecofeminismo foi definido como uma resposta do feminismo à problemática ambiental, um ponto de encontro para modificar relações com a natureza e com o autoritarismo. O seu significado foi relacionado com a adoção de perspectivas e valores femininos nos trabalhos voltados à ecologia. Percebem que há, segundo elas, uma "afinidade" entre ecologia e feminismo, sendo necessário resgatar a "identidade terra-mulher" e construir uma nova relação entre seres humanos e destes com a natureza.
Os objetivos do movimento, para as participantes, dirigem-se à uma "mudança de mentalidade", "reeducando" para "uma sociedade não patriarcal, um paradigma ecológico". Quatro delas referiram-se à busca de uma melhor qualidade de vida. Foi mencionada a construção da consciência ecológica e a importância de "intensificar e fortalecer as relações entre feminismo e ecologia". No dizer de uma participante, o objetivo é "a luta contra a violência sobre a mulher, sobre a natureza e sobre o planeta". Também dirige-se à denúncia da destruição do "princípio feminino da natureza" e à busca da "mudança das relações discriminatórias e devastadoras".
No entender das entrevistadas, as maiores dificuldades enfrentadas pelos movimentos ecologistas e feministas ligam-se às possibilidades de conseguir visibilidade, envolver a juventude e conseguir recursos financeiros e humanos. Na opinião de algumas, não tem ocorrido uma apropriação das premissas no cotidiano das pessoas, individualmente, e a articulação das mulheres não tem sido fácil, em uma sociedade sexista, quando se tenta romper com padrões estabelecidos, através da conscientização.
As perspectivas para atuação e o potencial de transformação existentes foram identificadas na inserção de seus princípios e preocupações na educação com uma ótica interdisciplinar e libertária. As maiores possibilidades para transformação social e cultural parecem ser para as próprias militantes do movimento, pois o mesmo caminha passo a passo, conquistando "alguns espaços". Para algumas, as perspectivas ainda são limitadas. Mas muitas entrevistadas acreditam que o movimento pode desenvolver projetos de geração de renda dentro das ONGs, em trabalhos que dêem estabilidade econômica às mulheres, pois, segundo elas trabalho, renda e cotidiano têm potencial de transformação.
Todas as informantes acreditam que o trabalho em uma ONG deva ser profissional, remunerado, pois, muitas vezes, é a atividade principal de suas componentes, muito embora algumas ressaltem que a ligação com o movimento vai além do mero profissionalismo e que o movimento não se restringe às ONGs, mas influencia todas as atitudes, o que corrobora estudos já realizados.(23)(24)
Em diversos trabalhos sobre o meio ambiente e as mulheres, sobre a participação das mulheres no ambientalismo,(25) destaca-se a importância da valorização e preservação do "princípio feminino" presente na natureza, componente da dialética da vida e condição para a superação da visão dualística e hierárquica da sociedade ocidental, que negou a força criativa, a sensibilidade, o cuidado e a intuição em detrimento da competição, individualismo e agressividade. Esse "princípio feminino" não é inerente à mulher, sua essência, mas está presente na natureza como pólo dialético, princípio criador, inerente à vida. Segundo Vandana Shiva,(26) a cosmologia hindu valoriza o "princípio feminino" como essencial à vida, pois Shakti, a energia e princípio sagrado criador do universo, é resultado da união de Prakriti, o princípio feminino, e Purushai, o princípio masculino. A união de ambos cria o mundo; a destruição ou desrespeito a um deles provoca o desequilíbrio da criação.
Segundo as entrevistadas os valores como cooperação, empatia, conciliação, emoção e intuição, entre outros, compõem os chamados "valores femininos", necessários para uma "relação mais harmônica do ser humano com a natureza" e, portanto, devem ser considerados pelo movimento ecológico, porque o ecologismo está "impregnado de discussões tecnicistas e desumanizadas".
Ao mesmo tempo, as informantes acreditam que esses valores são fundamentais para que ocorram transformações e para que os movimentos se humanizem e sejam facilmente administráveis. São necessários para permitir a subsistência da vida e sua falta significa um "culto exagerado da razão". Os valores ditos femininos são valores humanos necessários a qualquer atividade transformadora, mas construídos socialmente como femininos, enquanto que outras características que fazem parte do "princípio masculino", como o espírito empreendedor, também são fundamentais
A valorização das características do "princípio feminino" é considerada importante para o movimento das mulheres, segundo as entrevistadas, porque dá à mulher a possibilidade de recuperar sua dimensão de criadora. Uma das entrevistadas afirmou que o princípio hierárquico é que deve ser modificado, para que as "diferenças sejam respeitadas e não hierarquizadas".
Quanto à nutrição e ao cuidado, constatamos que a maioria acredita que, sendo funções ligadas à manutenção da vida e por estarem mais próximas, portanto, da natureza, ajudam a recuperar o equilíbrio natural, "sem entrar em choque com as conquistas femininas" e podem até fortalecer as lutas e afirmar as diferenças do ser feminino, quando são cumpridas "sem submissão". Devem ser enfocadas corretamente em "uma concepção de respeito às diferenças e valorização de todo tipo de trabalho" ou situadas na "perspectiva das relações de gênero", apontando para a "mudança nestas relações também por parte dos homens" ou deixando "bem claro que esta é uma parte do todo" que se quer transformar.
Apenas uma informante opinou que reforçar os "valores femininos" não é a solução para os problemas enfrentados pelas mulheres, mas por outro lado acredita que alguns "valores masculinos" como, por exemplo, dar a vida por um ideal, já não despertam interesse. O caminho estaria, portanto, na superação da bipolaridade entre masculino e feminino.
DAS PRÁTICAS COTIDIANAS – A MATERNIDADE
Procuramos investigar se a conceitualização teórica presente nos discursos das ativistas das organizações ecofeministas era acompanhada por repercussões e transformações em suas práticas cotidianas. Para tanto, levantamos informações sobre a atividade profissional remunerada das informantes, sua atividade profissional e possíveis intercorrências entre o trabalho e a vida doméstica, pela sua importância nas trajetórias femininas.(27)(28)(29)(30)(31)(32)
Os papéis domésticos e a vida reprodutiva têm sido discutidos pelo feminismo(33)(34)(35)(36)(37) e pela ecologia profunda(38) com enfoques diferentes. Entre as ecofeministas, alguns trabalhos destacam a relação entre o uso dos recursos naturais e condições ambientais que as tarefas domésticas trazem para as mulheres do Terceiro Mundo,(39)(40) onde a água e a lenha para cozinhar ainda são coletadas pelas mulheres.
As feministas apontam o quanto a divisão sexual do trabalho, construída socialmente, sempre se constituiu em fator de subordinação e limitação para as aspirações profissionais femininas. O feminismo acredita que a automatização e a partilha mais igualitária das tarefas domésticas são condição para uma nova relação entre os gêneros, sem, no entanto, demonstrar a viabilidade dessa solução para todas.
Para investigar o dilema entre a valorização dos aspectos biológicos do ser feminino e as construções sociais de uma feminilidade submissa, esta pesquisa deteve-se sobre a experiência da maternidade e do trabalho doméstico na vida das entrevistadas, procurando dimensionar que representações, teorias e práticas estão presentes em suas trajetórias.
O nascimento dos filhos parece ser uma variável importante nas trajetórias femininas, já que afeta a atividade profissional das mulheres militantes em 22% dos casos. Uma delas mudou de ocupação (era antropóloga) para ficar mais tempo com a filha, viajando menos. Outra entrevistada interrompeu a atividade há 30 anos, mas hoje crê que há mais recursos para que as mulheres profissionais não tenham que interromper a carreira. Uma das ativistas afirmou que não parou de trabalhar, mas que se fosse hoje, ela o faria, enquanto que outra informante não trabalhou remuneradamente até que seu filho menor completasse três anos.
A maternidade, segundo as observações, foi fundamental em suas vidas, mas difícil, dolorida e contraditória, segundo algumas e planejada, compartilhada, desafiante e gratificante, para outras. É um dos papéis que "mais fazem reais as relações entre seres humanos e os valores da vida em geral". Constitui-se em uma razão para se viver, "especialmente nos momentos mais difíceis" e traz a conscientização do próprio "eu feminino". Entre as que são mães, a importância atribuída à maternidade é marcante: é um elemento essencial no desenvolvimento psíquico e emocional. As demais entrevistadas afirmaram que ainda não são mães, mas pretendem sê-lo, pois acreditam que "esse é um dom supremo", um "trabalho" que exige responsabilidade, mas que traz "um poder muito grande".
Entre as que não atribuem destaque maior ao papel materno, acreditam que este é "um lugar... que nos faz pensar e agir para o futuro".
A PARTILHA DO TRABALHO DOMÉSTICO
Uma das hipóteses deste trabalho foi verificar junto às integrantes das organizações ecofeministas as repercussões das propostas dos defensores da ecologia profunda(41)(42)(43)(44) que sugerem um novo estilo de vida, menos consumista e mais ecologicamente equilibrado, em que homens e mulheres teriam uma jornada de trabalho remunerado reduzida e, portanto, estariam mais liberados para um maior convívio no lar, junto à família, partilhando, talvez alegremente, tarefas domésticas de forma igualitária e dedicando-se às atividades criativas, em alternativas para produção de bens e alimentos, à arte ou esporte.(45) Segundo os filósofos da ecologia profunda, se os homens estivessem mais próximos das tarefas de reprodução, haveria um ganho na qualidade de vida de todos, numa transformação que levaria os seres humanos a uma harmonização com a natureza, já que produzindo e consumindo menos, estariam poluindo menos, evitando o desperdício dos recursos naturais e valorizando os aspectos mais reais da vida, em contato com o meio ambiente.
As tarefas domésticas parecem geralmente gerar conflitos na convivência cotidiana, que podem não se resolver facilmente. Os casos mais agudos estão entre os que não vivem uniões conjugais estáveis, quando as dificuldades aumentam, gerando tensões na vida diária, percebendo-se que as tarefas domésticas são evitadas. Quanto à partilha de trabalho doméstico, oito entrevistadas recebem ajuda ou dividem as ocupações da casa com os maridos ou companheiros. Dentre estas, há um caso em que o companheiro assume mais as tarefas da casa e cuidados com a filha do que ela. As restantes relataram que a ajuda que recebem é espontânea, mas não regular e ordenada e que, por esse motivo, ocorrem "pequenos conflitos oriundos de uma prática não suficientemente interiorizada". Há partilha de tarefas com as filhas, com empregada, com amiga que reside junto e com irmãs. Nessas condições, a divisão de tarefas também não se resolve sem conflitos.
A tarefa doméstica que a maioria das informantes apontou como uma das únicas que são criativas e prazeirosas é a de cozinhar, que é vista até como uma expressão de afeto. As outras tarefas apontadas como agradáveis foram o cuidado de plantas, o cuidado de animais, lavar roupas e alguns trabalhos manuais, como pintura. Duas entrevistadas não gostam de realizar nenhuma tarefa. Dentre as que gostam de cozinhar, quatro ressaltaram que o fazem esporadicamente, desde que não seja de forma "rotineira e repetitiva". Podemos afirmar que as tarefas domésticas não são valorizadas pelas participantes das redes consultadas. Uma entrevistada afirmou que "delas não desgosta totalmente", uma expressão que transmite com precisão a reação generalizada aos trabalhos domésticos, com exceção dos mencionados acima. A rejeição é mais notável quando se considera que a execução não é rotineira e não chega a fazer parte do cotidiano.
Essa atitude foi observada quando foi solicitado que as entrevistadas assinalassem em uma tabela de tarefas domésticas, o tipo de ajuda que recebiam. Os resultados apontaram que, considerando-se casadas e solteiras, na maioria dos casos (59,1%) ela é prestada por empregada doméstica. A partilha com o marido ou companheiro ocorre em apenas 15,2% das tarefas executadas, na mesma proporção que a ajuda de outros parentes.
Podemos afirmar, pelo material analisado, que as integrantes das organizações ecofeministas não se sentem atraídas pelo contexto doméstico e que apenas algumas atividades despertam seu interesse, como cozinhar, por exemplo. Quando podem contratar serviços assalariados, costumam delegar as tarefas domésticas a outras mulheres, empregadas remuneradas, não valorizando, de maneira geral, esse tipo de trabalho. No entanto, a participação dos homens no trabalho doméstico e no cuidado dos filhos, como uma aproximação das tarefas da reprodução, é algo que se espera que um dia aconteça, o que parece inevitável. Daria aos homens a "oportunidade da reflexão sobre a qualidade de vida", numa aproximação que facilitaria a descoberta do "ser feminino" e os tornaria "mais sensíveis e cooperativos".
O contato com a natureza externa pode levá-los também à aproximação com a "natureza interna", que "por tanto tempo teve que se fechar a muitas coisas". Com certeza, isso traria transformações positivas, no envolvimento com as "prioridades das atividades ligadas à reprodução da vida". Na literatura ecofeminista, a idéia de gerar e nutrir é considerada tarefa profundamente ecológica, até mesmo mais radical que as propostas da ecologia profunda.(46)
O trabalho doméstico remunerado de mensalistas e diaristas, segundo seis das entrevistadas, tende a crescer como alternativa profissional. A profissionalização pode representar uma alternativa de trabalho para mulheres e também para homens. Estes podem desempenhar até as tarefas de cuidado das crianças, mas não se sabe ainda "como a sociedade receberá esta mão-de-obra masculina em tarefas femininas".
A PARTICIPAÇÃO POLÍTICA E SEUS EFEITOS NA VIDA PRIVADA
Estudos realizados com integrantes de organizações ambientalistas(47)(48) demonstraram que as explicações para a participação nesse tipo de atividade política podem ser encontradas na própria natureza das ações desenvolvidas no interior dessas organizações. Seus objetivos dificilmente podem ser atingidos de forma imediatista, exigindo um verdadeiro despertar da percepção, a conscientização do papel individual para o bem-estar coletivo, que provoca uma transformação pessoal definitiva e irrevogável, que se traduz em disponibilidade para a luta. Segundo Sorrentino, constroem-se critérios próprios para o que se constituem como custos, bem como critérios qualitativos para benefícios, que podem ou não traduzir-se em recursos materiais. Mesmo fora do grupo organizado, a ação não cessa, o que contraria a tese de Hirschmann,(49) para quem o interesse individual é o que mobiliza o cidadão para a esfera pública e o faz retornar, ciclicamente, para a vida privada. No entanto, os autores constataram que após o envolvimento e a participação, mesmo interrompidos ou suspensos por algum motivo, a mudança de hábitos trazida pela conscientização perdura e mantém-se, com repercussões e implicações decorrentes da atuação política. Os militantes passam a questionar-se, no conjunto daquilo que fazem, iniciando um processo em que todos os seus atos, quer públicos, quer privados, passam a integrar um conjunto articulado, do qual o sujeito se percebe como parte, de forma crescente. Esse conjunto não se reduz ao âmbito das ações concretas locais, mas transpõe fronteiras, alargando a análise da problemática ambiental para dimensões e contexto mundiais.
Segundo observado por Di Ciommo,(51) esse processo leva o participante à valorização da experiência da participação, que traz em si uma gratificação que é independente da concretização dos objetivos propostos, que muitas vezes se projetam para longo prazo, mas parecem ser a própria recompensa para os esforços exigidos.
Com relação às experiências das participantes em mobilizações relativas a questões ambientais, procuramos observar a inter-relação entre a participação política e as responsabilidades com a saúde da família, em especial com os filhos. Também tentamos verificar a repercussão dos conflitos políticos na esfera privada e o relacionamento com autoridades oficiais masculinas na busca de soluções.
As entrevistadas, em sua maioria, já participaram de mobilizações, envolvendo as questões da saúde, e de seminários e encontros sobre a saúde da mulher, entrevistas e programas de rádio. Algumas já participaram de lutas políticas, sindicais e de justiça ambiental, de maneira geral, como questões envolvendo a vizinhança do local de residência, em problemas com o lixo, o cuidado com encostas e luta pela "remoção de fábrica poluidora em 1984" . Outras três entrevistadas costumam participar de grupos de discussão sobre saúde mental, preocupadas com a família.
Em sua experiência com autoridades oficiais masculinas, as ativistas notaram que esse contato é "pesado e difícil na maioria das vezes", que "falta sensibilidade e sobra tecnicismo", que estes ficam "longe da realidade do que acontece de concreto com as pessoas", "falta um despertar para as coisas realmente importantes", até para si próprios.
Seis entrevistadas nunca tiveram contato direto com autoridades masculinas nas questões ambientais, mas uma ressalvou que só vê os homens "se mobilizarem quando pressionados". O contato é "tão bom ou ruim quanto com as mulheres", que por serem minoria nos postos de decisão não podem ser avaliadas da mesma maneira
Quanto aos efeitos do envolvimento em mobilizações políticas e ambientais no relacionamento familiar e na vida pessoal, as respostas mostraram que na maioria dos casos, existe admiração, orgulho, referência, as atitudes são aceitas e apreciadas pela família e pelos amigos, sem motivar conflitos, existindo respeito pelas opções assumidas. Em alguns casos, as atitudes das ativistas fazem com que a família questione suas próprias atitudes. No entanto, uma entrevistada, solteira, residindo com duas irmãs e sobrinhos, afirmou que influenciar a família é a sua tarefa mais difícil, porque "ninguém se preocupa, nem se esforça para melhorar". Outras parecem preocupar-se por terem que se ausentar de casa em função de seu envolvimento nas mobilizações, apesar do apoio que recebem. Às vezes, suas atitudes provocam perplexidade, pois a família nunca teve envolvimento político. Uma delas mostrou uma certa "angústia, por fazer parte de uma geração de mulheres que sacrificam sua vida pessoal e familiar pela militância", não considerando que isso seja "conveniente, nem saudável".
A participação política, no depoimento de uma ativista , "provoca muita discussão e até conflito doméstico" ao impulsionar a mulher para o espaço público. Isso cria problemas na "organização doméstica e afetiva da família" mas, às vezes, toda a família passa a se conscientizar e se transformar. Quando a mulher "avança sozinha", através do ativismo ambiental, fica "mais consciente das questões de gênero" e, segundo elas, então são comuns os casos de separação dos casais.
Consultadas sobre a possibilidade dos papéis reprodutivos levarem a mulher a uma maior participação nos movimentos ambientalistas, conforme a hipótese discutida por Celene Krauss(52) e Vernice Miller,(53) as entrevistadas responderam, em sua maioria, que isso não ocorre de maneira automática ou especial. Duas informantes não souberam responder. Três ativistas disseram que "uma coisa não melhora a outra" e que a participação é "uma questão de sensibilidade e disposição", que o fato de gerar e criar deveria levar as mulheres a "pensar mais ecologicamente", mas não se sabe se isso ocorre na prática.
A participação em mobilizações na defesa do meio ambiente, da saúde ou qualidade de vida, no entender de praticamente todas as entrevistadas, não reforçam os papéis domésticos de mães e donas de casa, nem limitam as pretensões profissionais das mulheres. Essa participação exige conscientização e identificação com a natureza, uma aproximação que "resgata valores", mas isso não quer dizer retardar ou "enfraquecer outros pontos que foram conquistados com tantas lutas", o que contradiz os argumentos de Janet Biehl(54) de que é contraditório colocar objetivos de emancipação feminista ao lado da valorização da vida reprodutiva. Segundo foi constatado, se a esfera da reprodução "psicológica-social for entendida na sua globalidade", tendo em vista a realização integral da mulher, as atividades serão complementares, não "excludentes".
A DIFUSÃO DOS VALORES E PROPOSTAS
Com relação à difusão dos valores do feminismo e do ecologismo na vida cotidiana, em ambientes de trabalho fora das organizações, todas as entrevistadas afirmaram que manifestam suas idéias entre colegas do meio profissional. Algumas o fazem com mais facilidade, pois só trabalham em organizações feministas. Uma das entrevistadas acredita que este é um assunto que não é recebido por todos com a mesma consideração no ambiente universitário, onde leciona, pois algumas colocações aparecem no cotidiano, mas não se discutem questões teóricas. Para duas entrevistadas, o mais difícil tem sido trabalhar esses conteúdos em casa, pois o ambiente tradicional não permite o diálogo.
As entrevistadas acreditam que "a participação na luta ecológica" é um instrumento de resistência à "submissão e inferioridade da mulher". Além disso, "uma profissional precisa de qualidade de vida, para melhor exercer sua profissão". Se a chamada "economia ecológica" impõe um estilo de vida menos consumista(55) e a necessária redução das jornadas de trabalho, a cooperação do companheiro e da família é obrigatória para rever os "circuitos das tarefas domésticas" como um assunto de mulheres e homens. Uma "volta para casa", como uma forma de retorno ao passado, parece não estar "ao alcance de nossa geração". O que poderia ser mais viável seria um equilíbrio sustentado, que integrasse a questão de gênero, iniciando-se com um "processo educativo não-sexista".
Para uma mulher que trabalha fora e que também tem que cuidar da casa, a introdução dos benefícios da alimentação natural e produtos que não agridam o meio ambiente "precisa ser feita por etapas, para que a mudança se torne equilibrada".
Segundo a pesquisa, somente será possível conciliar padrão de vida ecológico e trabalho feminino se houver "respaldo do poder público", não apenas com implantação de coleta seletiva de lixo mas com a participação das empresas e com "maior distribuição de produtos naturais no circuito comercial".
As entrevistadas afirmaram que há a aceitação superficial dos valores ecofeministas, mas um compromisso real não existe. O que parece ocorrer com mais freqüência é a aceitação do estereótipo de que "toda mulher é mãe" e "toda mulher tem instinto materno", mas não existe clareza quanto aos efeitos desses conceitos para a condição das mulheres. A possibilidade de difusão dos valores do ecofeminismo para algumas é baixa porque seu trabalho restringe-se a crianças e idosos da periferia. Ressaltam, no entanto, que idosos, quando informados, são muito receptivos a esses novos valores.
O ambientalismo, segundo algumas, ainda é muito rígido, masculino, preconceituoso e elitista. A presença das mulheres questiona esta posição e contribui para uma mudança dentro do movimento.
DESAFIOS NAS ORGANIZAÇÕES EM REDE
A participação das mulheres em ONGs conectadas em rede lhes dá a experiência de um trabalho não hierárquico. Sabemos que em uma organização em rede os integrantes possuem interesses comuns, mas isso não quer dizer que não existam conflitos. A convivência com a diversidade e a integração de necessidades e objetivos parecem ser a maior virtude e ao mesmo tempo o maior desafio dessa alternativa de organização, que se supõe ser a mais ecológica ou afinada com os parâmetros de um novo paradigma nas relações humanas.
Na opinião das entrevistadas, a maior vantagem oferecida pela rede é a maior possibilidade de contato, com pessoas e entidades, a maior mobilidade ou flexibilidade, a socialização das informações, a "troca mais igualitária", a aproximação entre "atores sociais que desempenham papéis parecidos", a "oportunidade de executar trabalhos e dar opiniões", sem sofrer imposição. As redes "nos dão esperança de iguais, pois a hierarquia é uma velha decrépita, nada fraterna".
Quando ligadas internacionalmente, o lado positivo é a circulação de informações, a agilidade das respostas, mas há um lado negativo "que é a subordinação às agendas internacionais, emperrando o aprofundamento da discussão e da autonomia locais". Algumas outras desvantagens foram apontadas, como o fato das pessoas não estarem acostumadas ao fato de trabalharem em rede. As tarefas ficam então "soltas", quando ninguém se responsabiliza, e nesse caso a rede perde em eficiência para a burocracia e a tecnicidade.
Um dos problemas também apontados foi o risco de que as dificuldades acabem envolvendo a vida pessoal. São sugeridas a união, a ajuda mútua e a comunicação, pois parece haver uma "falta de clareza a respeito do que é uma rede" e tem sido difícil fazer com as pessoas continuem se interessando e participando.
Conviver com a diversidade e o conflito dentro de uma organização em rede é "um aprendizado que vai sendo feito". Essa é uma questão percebida pelas ativistas como complexa. As respostas referiram-se às tentativas de desenvolver metodologias de trabalho em grupo, cuja prática vem ajudando a dissolver conflitos. Aprender a "ser rede", segundo uma entrevistada, é um processo lento.
Aceitar a diversidade e conviver com ela, segundo a maioria, é uma tarefa difícil, mas uma realidade que vai "existir sempre, seja dentro de uma organização em rede ou não", pois "na vida, conflito e diversidade coexistem". A aceitação exige a humildade para perceber o conflito como bom e saber "compreender e conciliar sem cair no nível pessoal". É preciso que prevaleça a "sinergia de interesses" e a compreensão de que "há espaço para todas(os)".
O conflito pode ser encarado como vital para a existência das redes, "só precisam ser melhor trabalhados" e "é bom que seja vivido com lucidez". Não se pode perder a capacidade de perceber que as redes e ONGs "são importantes, mas não resumem em si todo o movimento".
CONCLUSÃO
O século XX foi, com certeza, o século da emergência da liderança feminina e de sua visibilidade no cenário internacional. As centenas de milhares de processos locais, regionais e planetários, que conduziram a este resultado trouxeram à luz a necessidade de rever todas as formas de convívio humano e de organização social, com o intuito de assegurar, para mulheres e homens, relações de equilíbrio e harmonia e, para as organizações sociais, formas menos autoritárias e verticais de existência.
Esta análise realizada entre as integrantes de organizações em rede ecofeministas levou em conta que a participação política nesse tipo de organização reflete um novo modelo para o exercício da cidadania, em uma nova forma de fazer política.
Investigou a difusão, entre as integrantes, dos valores e práticas ecológicas e feministas que se estendem do convívio na rede até o âmbito doméstico. Procuramos tornar visíveis as possíveis implicações das novas relações de gênero e a divisão do trabalho doméstico, bem como as representações que o acompanham e que fundamentam a distribuição e realização das tarefas. Percebemos que o contexto doméstico não oferece atividades que atualmente despertem o interesse das ativistas das organizações, com raras exceções para a culinária. A propalada participação masculina e partilha das tarefas domésticas de forma igualitária parece ainda estar distante da efetiva cooperação. O modelo de relações de gênero mostra estar se modificando, mas lentamente, de forma pontual, o que determina que meninos e meninas continuem a ser educados para reproduzir papéis masculinos e femininos vigentes e o mesmo padrão de consumo e relacionamento com o meio ambiente.
A rejeição ao trabalho doméstico se manifesta em homens e mulheres, o que aprofunda as contradições trazidas pelas propostas da ecologia profunda e, mesmo entre as mulheres que estão ligadas à causa ecológica, mais tempo livre não deverá significar uma volta aos padrões domésticos antigos, que deixaram de ser uma alternativa atraente, a menos que essa volta para casa signifique uma oportunidade de auto-realização em atividades interessantes.
Em nosso país a causa ecofeminista, em muitos casos, ainda é vista com estranheza, até mesmo no meio universitário e entre os familiares, que não entendem seus conteúdos. As entrevistadas destacaram que sem o respaldo das políticas públicas, como as ligadas à coleta seletiva e reciclagem por parte das empresas, os limites de atuação das organizações permanecem estreitos e as mudanças acontecem por etapas. Também porque os produtos ecológicos alternativos representam um gasto maior para os orçamentos domésticos, pois são mais caros.
O relacionamento pessoal nas organizações em rede é um desafio para que as integrantes ponham em prática as teorias de coexistência com a diversidade, pois como em toda a organização os conflitos existem, mas o aprendizado da convivência horizontal faz avançar a compreensão da importância da sinergia de interesses.
Em um mundo globalizado, com a internacionalização de mercados e capitais, torna-se cada vez mais necessário "pensar globalmente e agir localmente", para caminhar rumo a um modelo de desenvolvimento realmente sustentável e autogestionário, de respeito aos seres humanos e à natureza, com novas formas de produção e consumo, fontes de energia renováveis e novos modos de convívio humano, incorporando a perspectiva de gênero a suas estruturas.
Entre os obstáculos ao exercício do poder pelas mulheres existem alguns que se interconectam e se alimentam mutuamente e o eixo que os une é a cultura patriarcal, que valoriza o masculino em detrimento do feminino. A cultura dominante, que empresta ao poder características masculinas, também se assenta na dificuldade em compatibilizar vida pessoal e familiar com a vida profissional e pública. Outros fatores são os decorrentes da educação que a maioria dos meninos e meninas recebe, que além de desvalorizar as necessárias tarefas domésticas, estimula a passividade feminina, sua maior restrição ao espaço privado e a visão do poder como algo externo e distante das mulheres.
Pode-se concluir que nos encontramos em meio a um processo em direção à igualdade que respeita as diferenças, no qual muitas das propostas dos movimentos feministas e ecofeministas foram colocadas em prática, alguns objetivos foram alcançados, mas o caminho para a consolidação da cidadania verdadeiramente plena ainda está sendo traçado à medida das experiências vividas, não havendo rotas definidas para suas(seus) participantes. As organizações feministas ambientalistas centralizam seus objetivos na construção de uma sociedade ecologicamente mais equilibrada e socialmente mais justa, mas lidam com as incertezas que as complexas e novas situações trazem para todas(os).
NOTAS
(A) A autora é doutora em Sociologia e realiza pós-doutorado no Laboratório de Ecologia Humana – LEHE – Departamento de Hidrobiologia, da UFSCar – Universidade Federal de São Carlos, SP, Brasil. e-mail: rdiciommo@linkway.com.br.
(B) Foram pesquisadas as seguintes organizações brasileiras: Rede de Arte e Literatura Feminista, do Rio de Janeiro; Rede Mulher de Educação, com sede em São Paulo; REPEM – Rede de Educação Popular com Mulheres da América Latina; Grupo Ecológico GENTE/Crescer Juntas, de Salesópolis (SP), conectada à Rede Mulher de Educação; CEMINA – Centro de Projetos da Mulher, do Rio de Janeiro, conectada à REDEH; GAMBÁ – Grupo Ambientalista da Bahia, conectada à Rede Mulher de Educação; Instituto Ecoar pela Cidadania, de São Paulo, conectado à REPEM e Rede Mulher de Educação; MOC – Movimento de Organização Comunitária da Bahia; Movimento de Mulheres de Ribeirão Preto; Associação dos Moradores do Jardim Kagohara, na cidade de São Paulo e AMZOL – Associação de Mulheres da Zona Leste de São Paulo, ambas conectadas à Rede Mulher de Educação.
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maio 2005 |
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