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Quintais Domésticos e Sua Relação com Estado Nutricional de Crianças Rurais, Migrantes e Urbanas
Ana Paula Branco do Nascimento, Marcelo Correa Alves e Silvia Maria Guerra Molina
Ana Paula Branco do Nascimento. Bióloga, Doutoranda do Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ecologia de Agroecossistemas (PPGI-EA), na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz – USP. E-mail: apbnasci@esalq.usp.br
Marcelo Correa Alves. Engenheiro Agrônomo, Mestrando do PPGI-EA e Professor do Centro de Informática da Agricultura (CIAGRI/ESALQ-USP). E-mail: macalves@esalq.usp.br
Silvia Maria Guerra Molina. Professora Doutora do Departamento de Genética, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Universidade de São Paulo. E-mail: smgmolin@carpa.ciagri.usp.br

RESUMO
No presente trabalho foram investigados a presença e o tipo de uso de quintal nas residências de crianças em idade pré-escolar que freqüentam Escolas Municipais de Educação Infantil (E.M.E.I.), e a relação desses quintais com o estado nutricional das crianças. Foram estudadas e comparadas famílias rurais (Novo Cruzeiro, MG), urbanas (Piracicaba, SP) e migrantes (rural-urbano). Não foi constatada diferença significativa quanto à presença de quintal na residência das crianças dos diferentes grupos. No entanto, houve diferença quanto à utilização dos quintais entre as famílias residentes em Novo Cruzeiro e aquelas residentes em Piracicaba. Não foi evidenciada associação entre o uso do quintal e o estado nutricional. Foram identificados casos de sobrepeso e(ou) obesidade nos pré-escolares residentes em Piracicaba, não sendo evidenciados casos em Novo Cruzeiro.
Palavras-chave: quintais domésticos, migração, estado nutricional, ecologia humana
INTRODUÇÃO
O quintal doméstico é uma das variáveis do ambiente que exerce influência sobre o estado nutricional da população.(1) Isto porque existe uma correlação positiva entre os produtos dos quintais e a freqüência de consumo dos produtos pelas famílias.(2)
Guimarães(2) e Ambrósio et al.,(3), em estudos distintos sobre a importância de quintais domésticos com relação à alimentação e rendas familiares, entre suas considerações ressaltam a importância do quintal para a diversificação dos alimentos presentes na alimentação diária. A ausência do quintal pode ser um fator de restrição da dieta, em especial dos alimentos fonte de vitaminas, minerais e fibras, como hortaliças e frutas. Outros aspectos muito relevantes referentes aos quintais , seriam a conservação das espécies cultivadas, a introdução de novas espécies conservando-se o germoplasma e a produção de plantas medicinais por populações tradicionais. (4) (5)
O uso de quintais tem sido uma estratégia de subsistência empregada desde o neolítico, e sua forma e funções estão intimamente relacionadas à evolução da sociedade, cultura e à agricultura.(6) (7)A domesticação dos animais e o cultivo de plantas pelo homem marcam a transição da economia coletora para a economia cultural-nômade, onde continuaram as coletas, mas os seres humanos plantavam e cuidavam da sua horta, além de criar animais.(8) Assim contavam com recursos adicionais para satisfazer a maior parte de suas necessidades e não se limitavam apenas ao simples colher daquilo que lhes oferecia a natureza.
Na sociedade moderna, a forma e a função dos quintais vêm sendo modificadas e adaptadas às novas exigências sócio-econômicas. Suas características atuais respondem às mudanças de valores e de modo de vida impostas pelo desenvolvimento capitalista urbano-industrial. Estas mudanças, principalmente no que se refere ao trabalho, causaram rompimentos com os antigos valores e a aquisição de novos.(9) Os quintais vão deixando de ser prioridade para a família, que abandona seus hábitos tradicionais e se empenha em ganhar dinheiro para adquirir bens de mercado, que muitas vezes foram produzidos no próprio quintal.
O quintal doméstico contribui também para melhorar muitos outros aspectos da vida nos centros urbanos.(10) No que diz respeito a segurança alimentar, o consumo de maior quantidade de alimento e o frescor dos alimentos perecíveis que realçam seu sabor, mostram, segundo estudos de caso, que as crianças pertencentes às famílias produtoras possuem diferencial nutricional superior às outras de famílias pobres não-produtoras.(10) Além disso, o quintal valoriza a cultura e o conhecimento popular sobre plantas e tipos de plantio (9), ocupa idosos e desempregados e garante alimentos de boa qualidade e variedade.
É essencial compreender a contribuição que o quintal pode trazer a ambos aspectos da segurança alimentar: acessibilidade e qualidade.(11) No mundo atual, com raras exceções (causadas por secas, guerras e pelos desequilíbrios provocados por elas), existem muitos alimentos para atender a todas as pessoas nas áreas rurais e urbanas.(12) Entretanto, não existem garantias de que todos os segmentos da população tenham acesso regular e suficiente a esses alimentos. Os que têm menos chance de consegui-los são os pobres, os vulneráveis, e os membros mais isolados da sociedade.
Uma alimentação adequada permite que a criança alcance o seu potencial genético de crescimento e desenvolvimento. As deficiências alimentares podem conduzir a criança a um grave estado de desnutrição, que se reflete em seu crescimento físico, desenvolvimento mental e intelectual, além de provocar desequilíbrios morfológicos e funcionais , os quais, dependendo da intensidade e duração , poderão ser irreversíveis.(13) (14)
A desnutrição na infância, indicada pelo comprometimento severo do crescimento linear e (ou) pelo emagrecimento extremo da criança, constitui um dos maiores problemas enfrentados por sociedades do terceiro mundo, seja por sua elevada freqüência, seja pelo amplo espectro de danos que se associam àquelas condições.(15)
Embora uma significativa parcela da população infantil sofra de complicações da fome crônica, o excesso de peso está aumentando em todo o mundo. No Brasil, existem hoje cerca de três milhões de crianças com idade inferior a dez anos apresentando tal problema.(16) Segundo as teorias ambientalistas de determinação do excesso de peso, ele prevalece nas regiões mais desenvolvidas do país, onde está mais adiantado o processo de modernização industrial, com conseqüentes mudanças de hábitos e em crianças menores de cinco anos.(17)
Desse modo, ao mesmo tempo em que declina a ocorrência da desnutrição em crianças e adultos num ritmo bem acelerado, aumenta a prevalência de sobrepeso e obesidade na população brasileira.(16) (18) Estabelece-se, desta forma, um antagonismo de tendências temporais entre desnutrição e obesidade, definindo-se uma das características marcantes do processo de transição nutricional do país.(18) Um outro agravante desse quadro é o fato dos indivíduos obesos não serem necessariamente bem nutridos.(14)
Sabendo-se que o quintal doméstico é uma das variáveis que influencia o estado nutricional da população, tornou-se importante conhecer se as famílias de pré-escolares matriculados nas Escolas Municipais de Educação Infantil (EMEI) do município de Piracicaba, SP, estão usando esse recurso e como o utilizam. Tornou-se relevante investigar a presença e o tipo de uso de quintais por famílias rurais de Novo Cruzeiro, MG, urbanas (Piracicaba, SP) e migrantes (rural-urbano); como também verificar se existe relação entre o uso de quintais e o estado nutricional das crianças.
CASUÍSTICA E MÉTODO
Município Estudado
- Novo Cruzeiro, MG, localiza-se no nordeste daquele estado, a 115 km de Teófilo Otoni e, em linha reta, dista 347 km da capital do estado, no rumo norte-nordeste. Situa-se a 772m de altitude em relação ao nível do mar, possui uma área total de 2433 km 2 e tinha 31000 habitantes no ano de 2000, dos quais 8000 residiam na zona urbana e 23000 na zona rural. As atividades econômicas consistem no plantio de um modo geral, principalmente do café, e na criação de gado.
- Piracicaba está situada no estado de São Paulo, a 180 Km da capital. A área urbana compreende 158,06 km 2, abrigando 95% da população e a área rural constitui-se 1154,24 km 2. Suas principais atividades econômicas relacionam-se à agricultura e à indústria. No ano 2000 possuía aproximadamente 329.000 habitantes.
Coleta e Processamento dos dados
A coleta dos dados foi feita por um questionário, aplicado nas Escolas Municipais de Educação Infantil (E.M.E.I.) pelos Agentes de Saúde, conforme recomendado em reunião específica pelas autoras do presente trabalho. Foram coletados os dados de 3996 famílias do município de Piracicaba e de 60 do município de Novo Cruzeiro, MG. Foi utilizado o programa Epi Info para a digitação e compilação das fichas de coleta. Os dados foram exportados posteriormente para o software Statystical Analysis System (SAS).
Peso e Estatura
Foram utilizadas balanças antropométricas, das marcas ARJA ou Filizola. Antes do início das tomadas de peso, em todas as ocasiões, as balanças foram reguladas com pesos de metal somando 2,0 kg. As crianças foram pesadas apenas com as roupas íntimas; sendo de 100 g a variação mínima registrada pelo equipamento.
Para as medidas de estatura solicitou-se que as crianças retirassem seus sapatos e subissem na balança antropométrica, assumindo postura ereta, com os braços ao longo do corpo, pés paralelos e cabeça normalmente erguida, com a linha do canto externo do olho em plano horizontal e paralela ao plano que passa pelo conduto auditivo. As crianças de até 23 meses de idade foram medidas na posição deitada segundo um modelo padronizado.
Estratos populacionais
Para melhor avaliação dos dados (n = 4046), dentro dos objetivos propostos, tornou-se necessária a caracterização dos seguintes estratos populacionais:
1. crianças com ambos os pais mineiros, residentes em Novo Cruzeiro (rurais).
2. crianças com ambos os pais mineiros residentes em Piracicaba (migrantes).
3. crianças com pai e mãe paulistas, residentes em Piracicaba (urbanos).
Neste sentido, para avaliar os tipos de uso de quintais, foram comparadas as crianças do item 1 (Minas Gerais e vivendo neste ambiente) com as crianças dos demais grupos. Entre os grupos 1 e 2 foram comparadas populações de indivíduos mineiros, geneticamente semelhantes, vivendo em ambientes distintos (Novo Cruzeiro e Piracicaba); entre 1 e 3, foram comparados grupos de indivíduos com origens genéticas diferentes. Foram comparados os tipos de uso de quintais, em cada um dos estratos populacionais estudados.
É importante destacar que em função desse procedimento, as crianças pré-escolares cujos pais nasceram em outro estado que não MG e SP, e hoje residem em Piracicaba, foram excluídas das análises aqui apresentadas. Assim, os cinco subgrupos relatados acima somam um total de 2239 crianças pré-escolares.
Análise dos dados
Avaliação Antropométrica
A partir dos dados de peso, estatura, sexo e idade das crianças, os índices antropométricos estatura-pela-idade e peso-pela-estatura foram calculados e comparados com o padrão de medidas da população de referência do NCHS, recomendada pelo OMS.
Adotou-se como mais apropriado para definir os pontos de corte na avaliação nutricional a classificação com base nas unidades de desvio padrão ou escore-z (obtido mediante o valor da variável observada no indivíduo, subtraído do valor da mediana, dividido pelo desvio padrão da população de referência). Este índice evidencia a diferença entre a população de referência e a população estudada.
As crianças classificadas como “eutróficas” apresentaram valores de estatura-pela-idade e peso-pela-estatura distando até dois escores-z da mediana da população de referência, como sugerido pelo NCHS. De acordo com esta classificação, as crianças que apresentam escore-z abaixo de –2 DP possuem desnutrição grave (pregressa) se o índice antropométrico for estatura-pela-idade (ZEI), e desnutrição aguda (atual) se o índice antropométrico for peso-pela-estatura (ZPE). As crianças com ZPE maior que 2 DP foram classificadas com sobrepeso e (ou) obesidade, uma vez que existem controvérsias na literatura em relação aos pontos de corte para a classificação do sobrepeso e obesidade.(19)
Análise estatística
A comparação entre os estratos populacionais foi realizada no programa SAS, empregando o teste de Cochran-Mantel-Haenszel (CMH). Este teste foi aplicado para analisar as proporções númericas das variáveis nos cinco grupos. O CMH é usado para comparar subgrupos de populações independentes, dois a dois, obtendo uma comparação global da resposta da variável nos subgrupos.(20) Assim foram avaliadas as diferenças estatisticamente significativas entre as distribuições obtidas em cada variável, no grupo de famílias residentes em Novo Cruzeiro, com as distribuições obtidas em cada um dos outros dois grupos de famílias residentes em Piracicaba e que foram listadas acima.
Os resultados foram expressos em tabelas e gráficos, e os grupos cujas distribuições diferiram das famílias de Novo Cruzeiro foram destacados com um asterisco (*), ao nível de significância alfa de 5% ( a =0,05).
RESULTADOS
Quanto à presença de quintal nas residências das populações estudadas (tabela 1), não se constatou diferenças significativas entre os grupos. Porém, observa-se que, em Piracicaba, existe uma pequena predominância de famílias com quintais (mais de 80%) em relação a Novo Cruzeiro (75,5%).
Tabela 1 -
Distribuição dos pré-escolares segundo a presença de quintal em sua residência
Quintal
|
Rurais |
Migrantes |
Urbanos |
n % |
n % |
n % |
Sim |
40 (75,5) |
232 (81,7) |
1651 (87,3) |
Não |
13 (24,5) |
52 (18,3) |
239 (12,7) |
Total
|
53
|
284
|
1891
|
Nota: *
Indica grupos que diferem significativamente do grupo rural pelo teste de CMH, com nível de significância alfa de 5% ( a =0.05). Sua ausência indica que não houve diferenças estatisticamente significativas.
Para as famílias com quintal na residência foi perguntado qual o uso dado ao quintal, sendo tal uso classificado em 3 categorias: plantação e (ou) coleta de alimentos; criação de animais e outros usos. Em relação a distribuição dos tipos de uso dos quintais o grupo de famílias de Novo Cruzeiro diferiu significativamente dos demais grupos. Em Novo Cruzeiro a maioria da população (95,8%) utiliza os quintais para a plantação e (ou) coleta de alimentos para a subsistência (figuras 1 e 2).
Tanto as famílias migrantes (figuras 3 e 4), quanto aquelas em que ambos os pais são do estado de São Paulo (figuras 5 e 6), utilizam seus quintais, em sua maioria, de outra forma que não as dos itens citados (36,3% e 38%, respectivamente), diferindo estatisticamente da população residente em Novo Cruzeiro. Segundo as famílias, este uso abrange lazer, lavagem e secagem de roupas, e também a utilização do espaço para realização de atividade visando a geração de renda. Assim, dentre os usos citados , pode-se destacar: estacionamento para carros, oficina mecânica, armazenamento de papelão coletado pela família, lanchonete, tanque para peixes, entre outros.

Em relação ao estado nutricional dos pré-escolares migrantes de Novo Cruzeiro, MG, que freqüentam as EMEI no município de Piracicaba, SP, foram identificados casos de desnutrição grave (ZEI < 2) em 6,6% das crianças (figura 3). Quando o indicador do estado nutricional foi peso pela estatura, apenas identificou-se 1% das crianças migrantes com baixo peso (ZPE < 2), enquanto que em 8% dos pré-escolares deste estrato foi detectado sobrepeso e(ou) obesidade (ZPE > 2).
Nota-se na figura 5, o estado nutricional das crianças cujos pais são do estado de São Paulo. É observado que 7,6% das crianças são consideradas com desnutrição grave (ZEI < 2), 0,5% com desnutrição atual (ZPE < 2) e 11,5% com sobrepeso e(ou) obesidade (ZPE > 2).
Quando foi verificada a proporção de pré-escolares na faixa de “eutrofia”, segundo OMS (-2 < ZEI < 2), todos os estratos tiveram uma percentagem igual (urbanos) ou superior (rurais e migrantes) à esperada (84,1%), quando se adotou como parâmetro populações de referência (NCHS, 2002).
Constatou-se ainda um número elevado de crianças com excesso de estatura para idade em todos os grupos. A curva de crescimento adotada como padrão pela OMS, é uma estimativa do que é normal ou não. A população utilizada para a curva padrão de crescimento é a população norte-americana, a qual, devido tanto ao patrimônio genético como ao ambiente, difere da população aqui estudada. Assim, se por um lado o emprego desta curva torna os resultados obtidos comparáveis com os da literatura científica internacional, por outro, torna-os sujeitos serem imprecisos devido às razões assinaladas acima. Isto é válido também para as análises de peso-pela-estatura.

Entretanto, quando se analisa as crianças consideradas “eutróficas” (-2 < ZPE < 2), constata-se que todos os grupos possuem mais de 88% das crianças concentradas neste intervalo, o que caracteriza os grupos como tal, em boas condições de saúde. Nota-se também que não houve casos de obesidade entre as crianças residentes em Novo Cruzeiro. No entanto entre as crianças residentes em Piracicaba, houve casos de sobrepeso/obesidade. De acordo com os padrões internacionais todos os grupos de famílias que residem em Piracicaba estão acima do considerado aceitável.
DISCUSSÃO
Como já mencionado, a presença e o tipo de uso de quintais é um fator que pode contribuir tanto para a variação da qualidade da alimentação como para um aumento da renda familiar.(11) De acordo com Guimarães (2), a produção de alimentos nos quintais domésticos tem forte influência sobre a freqüência de consumo de frutas e hortaliças.
Cabe considerar que uma adequada produção para auto-abastecimento familiar é de suma importância, pois aumenta a variedade dos alimentos consumidos, rompendo muitas vezes com a monotonia da dieta. Freqüentemente as famílias de baixa renda não podem comprar no mercado hortaliças e frutas que seriam desejáveis. Por isso têm de produzi-las. Além disso, as ervas e especiarias, cultivadas pela família, enriquecem consideravelmente o sabor de muitos pratos tradicionais.(3) Segundo os autores os produtos do quintal são praticamente a única fonte de retinol (vitamina A) e de ácido ascórbico (vitamina C). Isso mostra a importância do quintal na alimentação da família, que também pode gerar renda com produtos excedentes.(11)
Um dos fatores observados por Adams (15) e Murrieta (21) é a variação da dieta de um ano para outro em comunidades caboclas. Apesar da baixa produtividade mostram que ela é satisfatória em termos de macronutrientes quando comparada aos requerimentos mínimos internacionais (RMI). A mandioca normalmente consumida na forma de farinha é a principal fonte de energia na dieta cabocla, independentemente da estação do ano considerada.(21) Também foi constatado por Murrieta e Dufour (22) que comunidades localizadas na Ilha de Ituqui, no Pará, cultivam alimentos como mandioca e peixe, tendo-os como base de sua alimentação. No entanto, quando a disponibilidade se torna limitada por obstáculos ecológicos (como inundações), as famílias são forçadas a comprar farinha, que poderia ser adquirida do próprio quintal.
No presente trabalho, foi verificado que a população rural utiliza os quintais para a plantação e (ou) coleta de alimentos para a subsistência, diferindo das populações residentes nas áreas urbanas. Desse modo, constatou-se que os migrantes estão adquirindo hábitos semelhantes aos do local de recepção, onde estão deixando de cultivar alimentos nos quintais para os utilizarem de outra maneira. Isto pode estar acontecendo porque os migrantes não estão obtendo oportunidade de trabalho e assim utilizam o espaço do quintal para gerar renda. Também é possível que no novo local a pessoa que seria antes a responsável por zelar pelo quintal esteja inserida no mercado de trabalho. Tal constatação sugere que as famílias migrantes podem estar se sujeitando a um maior risco alimentar após a migração. No entanto, na amostra estudada, não se constatou relação significativa entre o tipo de uso de quintal e o estado nutricional das crianças, o que não exclui a possibilidade de muitas famílias estarem adquirindo certos nutrientes apenas dos alimentos disponíveis nos quintais.
Quando Brandão (9) relatou sobre alimentação de uma comunidade rural no processo de transição para a cidade, ficou evidente que a influência da cultura na alimentação de uma população vem de uma relação histórica do meio em que o indivíduo se desenvolveu, ou seja, da incorporação dos hábitos de sua família, de seus amigos, das pessoas com quem se relaciona em seu trabalho, de eventos que ocorrem em sua vida (como a situação financeira) que o obriga a optar por um alimento ou outro, mesmo que este não tenha as características nutricionais necessárias. Acredita-se que fatores como prazer, importância atribuída a alimentos sem “produtos químicos” e principalmente a necessidade econômica, movam as pessoas a plantar retirando boa parte de sua alimentação do próprio quintal, assim como os costumes herdados tanto de gerações anteriores como adquiridos a partir do convívio com indivíduos da própria geração.(9)
O cultivo de alimentos pelas famílias residentes em Piracicaba, poderia estar ajudando a reduzir casos de sobrepeso e(ou) obesidade, oferecendo as famílias alimentos frescos e saudáveis, evitando problemas futuros encontrados por sociedades modernizadas, como ocorre no caso de muitas doenças crônicas conseqüentes da má-nutrição.(14)
A definição de segurança alimentar evoluiu para a ênfase atual ao acesso à comida, indo, portanto, além do conceito inicial, que apenas considerava a disponibilidade da comida (no mercado). Segurança alimentar também pressupõe que a comida seja saudável, inclusive contendo as vitaminas e proteínas necessárias, mais do que simplesmente contemplar o aspecto calórico.(12) Assim, para que haja segurança alimentar, é necessário que exista disponibilidade durante todo o ano, ao nível nacional e comunitário, dos alimentos necessários a população e é também preciso que as famílias tenham acesso físico e econômico a uma quantidade suficiente tanto em quantidade, como em qualidade e variedade de alimentos.(12)
De acordo com Frère et al. (10), a maior parte das capitais de estados do Brasil, confronta-se com um problema de crescimento intenso em uma situação pouco adaptada para acolher este aumento populacional. Este fenômeno deveu-se não apenas ao aumento da natalidade, mas, sobretudo, a chegada de novas populações que migraram das zonas rurais para as cidades. Segundo aquele autor (10), as populações migrantes são atraídas pelos centros urbanos em busca de melhores condições de vida e na esperança de um melhor futuro para os seus filhos no que diz respeito à educação, saúde e perspectivas profissionais. Estas famílias chegam à cidade com poucos recursos financeiros e procuram imediatamente uma fonte de renda. Deste modo, o cultivo no quintal é uma forma de segurança durante dias difíceis, em que a renda não permite a compra integral de alimentos para as três refeições diárias ou medicamentos.
Na comunidade de Coxquihui, México, os quintais fornecem fluxo de suprimentos necessários, dando suporte ao cotidiano dessas famílias tradicionais.(5) Da mesma maneira na aldeia de Sanjia, China, foi constatado que os quintais contribuem para produção de energia e fluxo monetário podendo prover modelos artificiais de economia em áreas rurais.(23)
Em países de terceiro mundo, como o Brasil, onde grande parte da população é extremamente carente, os quintais podem se constituir em ótima alternativa para suplementar a dieta alimentar de famílias pobres que possuam uma área cultivável em seu domicílio.
A atividade também contribui para a melhoria do ambiente: aumenta a permeabilidade do solo, reduz erosões e substitui terrenos ociosos que antes seriam destinados à especulação imobiliária ou à degradação ambiental. Sua utilização para a produção em bases agroecológicas (sem agrotóxicos nem fertilizantes), de baixo custo, por meio de planos participativos, promove a educação alimentar; promove também a diversificação e a valorização da cultura alimentar local; o fortalecimento da agricultura familiar; contribui para o abastecimento urbano, e gera instrumentos de inclusão social. (5) (24) (25)
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os dados apresentados acima não apontam uma relação significativa entre o tipo de uso de quintal doméstico e o estado nutricional de crianças pré-escolares nos municípios de Novo Cruzeiro, MG e Piracicaba, SP. No entanto, a população rural de Novo Cruzeiro utiliza o espaço do quintal para alimentação (talvez a única fonte de alguns nutrientes) diferindo das populações que migraram para Piracicaba e das que já residiam neste local, que utilizam os quintais especialmente para gerar renda. Um aspecto relevante, talvez decorrente deste fato, é que não se constatou nenhuma criança obesa na amostra do município de Novo Cruzeiro, ao contrário do verificado neste particular para Piracicaba.
O uso de quintais urbanos ou rurais tem o potencial de auxiliar as famílias a melhorarem as suas condições de alimentação e (ou) renda familiar. No contexto analisado no presente trabalho cabe ressaltar também a importância do apoio à agricultura familiar como uma forma de ajudar o desenvolvimento, equiparando o cultivo nos quintais a diversas outras formas de produção. Neste sentido, a utilização dos quintais como estratégia de segurança alimentar, de melhoria da alimentação, e de saúde preventiva deve ser considerada fundamental para assim promover a implementação de ações de apoio a esta atividade, visando a sua valorização. Em centros urbanos, as famílias vêm perdendo essa tradição, quer seja pelos espaços reduzidos em torno das residências ou pela maior oferta de alimentos industrializados. Dessa maneira, possivelmente em conseqüência da exposição a produtos alimentares comercializados e não necessariamente mais nutritivos associados à redução no uso de quintais para produção de alimentos, verifica-se nas sociedades modernizadas um grande número de indivíduos com sobrepeso/obesidade como evidenciado no presente estudo para as crianças em idade pré-escolar. Estes hábitos podem ser caracterizados como fatores de risco aos quais se expõem às populações humanas que migram do campo para a cidade, bem como os seus descendentes.
Referências Bibliográficas
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outubro 2005 |
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